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São Paulo, SP

Corredora Zen :-)

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PERFIL

Histórias de corrida, yoga, alimentação, produtos e provas. Para mim, corrida é um tipo de meditação e escrever um tipo de diversão. Muito prazer, eu sou a Natalia Yudenitsch, mas pode me chamar de Nat. Se quiser, fala comigo no corredorazen@gmail.com

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Cruce de los Andes - Dia 3 - Alguém tem uma papete?


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 28/02/12 às 18:04 na(s) categoria(s) provas
O 3º dia já começou bem: sobrevivemos ao crime da mala, ao frio pós-lago, ao cansaço e a 2 dias anteriores somando 90K. Então se você tinha chegado até ali, já estava no lucro. Como as malas chegaram em algum momento em que eu estava dormindo (ouvi falar 4h ou 5h da matina), quando saí do modo sardinha da barraca, minha querida malinha vermelha a-prova-de-tudo estava lá. Com roupas do meu tamanho, comidinhas para a prova e tenis seco. Felicidade é uma coisa tão simples né?

Pois eu estava lá me trocando para o último dia quando ouço uma voz perguntando: "alguém tem uma papete??" Abri um sorriso gigante ali sozinha. Porque era a voz da Déia, aquela que ia parar e voltar para San Martin por causa das unhas detonadas. "Ela vai", constatei. Porque se ela estava pedindo uma papete, é porque já não estava mais questionando se ia ou não correr e sim COMO operacionalizar a coisa. Simples assim.

Claro que ninguém tinha uma papete. Ela acabou dando uma geral rápida com o médico ali mesmo no ambulatório --na verdade ela só precisava de uma opinião profissional que garantisse que o dedo NÃO ia cair, porque dor... bom, a dor já virou sua amiga e amiga você não evita, você abraça.

O dia estava lindo, super sol, super céu azul. Nos despedimos pela última vez de nossas malas viajantes, tomamos café e fomos todos alegres e felizes para a largada. Porque dia 3 é sempre uma alegria. Mesmo com todo mundo acabado, milhões de faixas kinesio colorindo joelhos, tornozelos e pernas da galera, é o final --e um final com METADE da distância que já estava virando praxe.

Nesse último dia, inovaram a largada. Primeiro saíram as duplas masculinas, depois mixtas e por último as femininas. Nosso grupo, todo mundo sorridente, destruído e tirando muitas fotitos.

De repente passo pela Cris e sua dupla Rosália. Último dia, que seria o dia da definição - nossa dupla brasileira estava numa disputa acirrada com as argentinas, e o 3º seria o dia-do-vamos-ver. Na hora da preparação da largada feminina, as rivais estavam lá, no gargarejo, se preparando para sair o mais na frente impossível. E cadê Cris? Pois a nossa dupla estava sentadinha na areia lá do outro lado, olhando calmamente a aglomeração no gate. Desconforto das argentinas, que olhavam toda hora para as brasileiras, tipo e aí, vocês não vão vir aqui? E elas lá, na maior tranquilidade.

Deu a largada. As argentinas partiram, sem saber exatamente o que estava acontecendo. E nossa dupla estrategista largou tranquilamente por último, atrás de todos --afinal a estrada seria bem larga, sem problemas para ultrapassagens e o tempo se conta pelo chip né?

O resultado foi uma das coisas que mais gosto em provas --ver o povo que disputa pódio correr (pena que não deu para ver outras duplas amigas voadoras que largaram na minha frente). Porque saindo lá de trás elas foram fritando o chão, passando todas, até que passaram a dupla rival. Como eu queria ter visto a cara delas quando nossas brasileiras passaram por elas vindas láááá de trás. E a Cris, como sempre, sem faltar um incentivo para alunos e amigos no caminho, mesmo naquele momento atleta-disputando-o-1º-lugar. Pessoas, eu não sei se isso é o normal, porque não tenho experiência com outros treinadores. Se não for, deveria. Mas eu me emociono todas as vezes.

Eu, neste dia, estava com MUITA vontade de correr. A perspectiva de correr "só" 21K era o máximo. O dia estava lindo. Então comecei a correr. Fui encontrando pessoas amigas --muitas das quais desconhecidas mas mesmo assim amigas. Quem faz o Cruce junto pode não saber o nome direito, mas já é quase amigo de infância.

Passei muita gente animada, rindo, feliz. Fui passada por outro tanto de gente idem. Vi as Blondies passarem lindas, loiras e irradiando alto astral. Vi a Su feliz, correndo bonito de dar gosto. Vi Betinho e Pedrinho sempre no maior bom humor, com o perrengue que fosse.

Aí vi a Déia & Ari e fui junto com elas. A dupla generosamente se abriu para um trio, com direito a risadas, conversas na fila da aduana (sim tinha que fazer a aduana para voltar a Argentina), comidinhas compartilhadas. Corremos juntas quase que a prova inteira, comigo abrindo uns segundos nas descidas por um motivo muito simples: eu ainda estava aguentando correr soltando na descida. Se doía? Muito. Mas eu conheço meu corpo. E lembra a história de virar amiga da dor? Pois é. Ela deixa de ser um bicho-papão paralisante e vira um desconforto apenas.

Os 21K, apesar das subidas, da dureza das descidas, passaram voando (os 21K, não eu). E tudo o que eu queria era terminar. Aí passou um riozinho na altura do quadril (a última surpresita da prova) e pronto! Acabou! Era até difícil de acreditar. Mas acabou MESMO?? Mas era só ver a Re pulando na margem e gritando parabéns para saber que sim, tinha terminado MESMO. Essa sensação de fim-de-Cruce é O MÁXIMO.

Abracei a dupla que nesse momento era trio e comemoramos as 3, gritando, pulando (tá, essa parte do pulando é mais figurativa), se abraçando, rindo --e, claro, tirando fotos. E esperando outras duplas amigas para recomeçar o processo.

Agora eu preciso desmascarar uma coisa nesse Cruce: o gate fake. Porque era assim: você atravessava o rio e pronto, chegava, uma tchica pegava seu nome e nº, acabou. Aí você ficava na fila, que era de mais ou menos 1h30, para um barquinho te levar para a outra margem. Aí você caminhava tranquilamente até que chegava num descampado e via uma coisa bizarra: o gate de chegada. Porque vamos combinar: você chegou há 1h30 atrás. Já tirou a mochila, esfriou, já conversou, comemorou, sentiu frio, calor, já está sonhando com a banheira do hotel e um jantar maravilhoso.

Aí alguém grita para você correr para passar pela chegada. Oi? Como assim por exemplo? Eu já cheguei faz tempo moço. Então vou ter que melar o esquema e contar que todas aquelas fotos do povo atravessando correndo a chegada final na verdade foi uma coisa meio posada. Porque os fotógrafos esperavam você chegar a uns 15 passos do portão, começar a correr para clicar. Achei estranho e desnecessário. Quero dizer, fazer pose de chegada no gate acho legal! Eu fiz questão de tirar foto também, o registro quase obrigatório da chegada "oficial". Mas essa corridinha fake 1h30 depois? Fala sério. Por isso nosso trio tirou foto oficial, sorriu e fez pose, mas não fez a corridinha marmelada.



E foi assim que terminou o último dia do Cruce, com dia lindo, corpo cansaaaaaado, dores everywhere, alma leve e cara feliz. E a papete? A papete para mim virou o símbolo desse dia, porque ilustra perfeitamente o espírito da prova: o momento em que você tem uma virada de atitude, você para de se questionar se vai ou não conseguir e começa a pensar em como fazer, porque que você vai, ah, isso vai.

Para fechar o Relato Cruce 2012:


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Cruce de los Andes - Dia 2 - O crime da mala


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 22/02/12 às 17:00 na(s) categoria(s) provas
Dia 2 do Cruce, já aprendi, é o dia-do-vamos-ver. Porque é o dia em que os imprevistos e apuros acontecem. No Cruce 2010 foi o Dia do Vale da M..... No Cruce 2012, foi o Dia do Crime da Mala.

Mas estou me adiantando. Primeiro tem que voltar ao final do Dia 1, pós-vulcão. Depois da nieve fofa, do cascalho rolante, da subida sem fim, da descida super íngreme e da ponte que não chegava, o mistério era saber como é que a gente ia enfrentar o 2º dia, chamado de "más duro" no site da organização. Más duro que o vulcão? Help.

Para aumentar o clima de suspense, durante a noite choveu. Bastante. Eu tive visões do famigerado dia da chuva do Cruce 2010, com rios subindo, pontes caindo e acampamentos em lugares pavimentados de cocô de vaca. Mas foi só um flashback do terror, porque no amanhecer o dia estava RADIANTE. Apesar da chuva e da barraca smurf ficando com as paredes molhadas (não de chuva e mesmo esticando a 2ª camada ao máximo), dormi incrivelmente bem. Ah, colchãozinho inflável, você é um trambolho mas eu te amo mesmo assim.

Por conta da tchuva, a largada foi adiada para tipo 9h30. Ou seja, deu tempo de acordar, se alongar, arrumar a mala e empilhá-la na praia, tomar café e se preparar para andar os mesmos 2K da largada, porque o início do percurso ia ser o mesmo do Dia 1 no comecinho, só que obviamente logo mais ia para o outro lado, tipo fugindo do vulcão.

A expectativa de correr depois dos 43K do dia anterior é de que seja algo bem sofrido, afinal o corpo todo te lembra do Dia 1. Mas aí você larga e algo acontece. Deve ter uma explicação lógica e científica para isso, mas pode chamar de mágica que dá na mesma. O fato é que de repente tudo se encaixa. Claro que subir e fazer força continua sendo duro, claro que os músculos, tendões e ligamentos ainda lembram do esforço do dia anterior. Mas nada disso parece importar ou fazer muita diferença.

É como se o corpo falasse "ok, entendi, você sua maluca vai querer correr + de 40K todos os dias agora né? então tá, vamos com tudo". E o corpo simplesmente SE ADAPTA. Com "se adapta" não quero dizer que você vai se arrastando, sobrevivendo. Significa que o cansaço vai diminuindo, você vai se aquecendo, vai engrenando e CRESCENDO na prova, algo que parecia impossível até então.

É por isso que você não deve entrar em pânico quando estiver treinando para uma prova dessas e quebrar no 1º treino de piramba forte. Quando se sentir acabado e quebrado depois de fazer um treino de 3h e pensar "se estou assim depois de só 3h no 1º dia, como vai ser no Cruce?". DELETA ESSE PENSAMENTO. NA HORA! Porque a verdade, como a Cris sempre repete, é que essa conta não fecha. Vamos lembrar aquele mantra novamente: treino é treino, prova é prova. Você pode morrer no treino, achar que não aguenta dar nem mais um passo --mas num Cruce é diferente. Acredite. Você não consegue simular o que acontece num Cruce num treino.

Porque não é só físico. Na verdade, essa parte é bem pouco física. O físico, se você seguiu sua planilha e fez todos os treinos direitinho, está garantido. Mesmo que os treinos tenham sido duros e você tenha dúvidas. Mas essa força que surge numa prova dessas vem de algum outro lugar. Se a cabeça está boa, se você não entrou em pânico ou começou a ter pensamentos circulares sobre desistir, o corpo aguenta.

E olha que o Dia 2 teve subida. Segundo ouvimos, teria uns 15K ou 20K de subida, mais uns 15K de descida. Então o foco era tentar subir o mais rápido possível na expectativa de chegar logo no topo da montanha e começar a descer.

Neste dia, minha prova solo não foi tão solo assim: o Aloysio, da querida-dupla-amiga Lu + Aloysio foi companheirão de quase 100% do percurso. Porque o casal tinha se deparado com uma questão peculiar: depois do vulcão, um sentia dor se andasse e o outro sentia dor se corresse. E agora Batman? Sensatos que só, decidiram que só neste dia um correria, o outro andaria e se encontrariam no final --vamos deixar claro que não por uma questão de classificação, que eles não estavam nem aí com isso, mas para garantir um sofrimento menor aos dois.

A companhia foi ótima, uma conversinha nas horas mais terríveis da subida ajuda muito, pelo menos a mim. E a subida continuava, estradinha no meio do verde, árvores de tronco esbranquiçado nas margens, mar de montanhas no horizonte. E o topo que não chegava? Cada hora a gente pensava: é ali! Mas nada, tome mais uma curva e uma subida.

Até que finalmente chegou, segundo as pessoas com GPS, no KM 30. UAU! Já km30?? A animação foi geral, afinal se o percurso tinha 40K agora era só descer correndo até a chegada, sensacional! Essa idéia foi como uma injeção de adrenalina na galera. Com sorriso nos lábios, falamos "e aí, vamos acelerar??".

A partir daí foi uma endorfinada só, despencando montanha abaixo. Aloysio estava impossível, protagonizando ultrapassagens perigosas em alta velocidade. Eu me diverti MUITO. Me senti criança, sabe quando o legal é você ir MUITO RÁPIDO (mesmo que a velocidade real não seja tanta assim mas a sensação sim)?

Mas aí eu ia olhando no reloginho e contando, 3K, 4K, 5K, 8K, 10K --agora tá acabando né? Sprint final, certo? Só que eu corria e os quilômetros continuavam: 11K e descendo, 12K!! E de repente parou de descer. Eu olhando ansiosa, cadê o gate de chegada?? E aí de repente vejo umas pedras. Costão cercado de água. Einh?

Essa era a surpresita que a organização guardou para o 2º dia. Senão ia ficar muito fácil né? No final o percurso somou 47K. E 2K finais de pedras e água para atravessar. Daquele tipo que você tem que ir se segurando (e não daquele que você simplesmente anda ou corre por cima). Ali eu tive um momento-pastelão, escorreguei e caí na água. Até aí beleza, rasinho, o problema é o detalhe: com a máquina fotográfica fora da proteção. Não, não era a prova d´água. Sim, devia estar na proteção. Por que não estava? Sei lá, eu estava lesada, achando que já tinha acabado e deixei a máquina a mão. Disponível para um breve mergulho, sabe assim? Por isso, a quantidade de fotos desse dia ficou, digamos assim, limitada. Assim como as do dia seguinte. Ah, e a máquina voltou a vida (em São Paulo, claro).

Mas voltando, essa travessia demorou PARA SEMPRE. Olha, eu sou bem ruim de andar em pedras, não tenho essa experiência, sou lenta, mas o povo na minha frente ganhou o Oscar da Lerdeza. Deu até um nervoso. Era meio passo, parada, pausa para gritar ou xingar hijo de puuuuuuuu......., parar, receber incentivo de outros tchicos, mais um passo... Gente, eu sou uma pessoa calma. Zen. Mas ali estava demais. E se uns poucos seres não passavam, ninguém passava. Porque a água estava subindo --aliás, pessoas inteligentes leitoras deste blog, como um lago pode ter marés (ou o equivalente de)? Porque o nível de água estava claramente subindo, tanto que as pessoas que chegaram umas horas depois não puderam passar porque estava acima do peito.

Foi desesperador, porque dava para ver a chegada ali do lado mas não chegava. E o sol indo embora. E você ali, preso na câmera lenta. O resultado foi que cruzei a linha de chegada com FRIO. Frio daqueles de congelar pensamento, porque o sol já tinha saído do acampamento e todas as roupas estavam encharcadas e geladas no corpo.



Poxa, para de reclamar e troca de roupa então né? --vocês devem estar dizendo. Pois é. Só que tinha um probleminha. A mala não tinha chegado. Oi? Como assim por exemplo? É, quase nenhuma mala tinha chegado ao acampamento 2. O Crime da Mala. Porque a balsa, aquele balsão imenso que nos trouxe até lá, teve um problema. Pelo que entendi começou a vazar combustível. Resumindo, estava fora de combate. Então sei lá, só umas 20 das 1.500 malas tinham chegado. E a quantidade de pessoas molhadas batendo dentes aumentava.

Aliás, se engana quem achou (como ouvi gente falando na raiva do momento) que só elite tinha as malas na mão. Assim que eu cheguei vi a Cris, que vamos combinar está nesse grupo (até porque ganhou este Cruce) e tinha chegado HORAS antes de mim e nadado nesse trecho das pedras, de shorts molhado, só de meia e com cada pé dentro de um pacote de bolacha para esquentar um pouco. Pena que minha máquina estava fora de combate, porque teria dado uma foto ÓTEMA.

Aí começou o que sempre acontece nessas horas. Indignação, ultraje, inconformismo, ódio no coração. Mas a organização não tinha um plano B? Bom, tinha. O plano B era ir trazendo as malas de carro, camionete, que foi o que eles fizeram. O problema é que cada leva demorava horas e chegavam tipo 30 malas por vez, que era o que cabia em cada veículo.

No acampamento, já estava rolando um motim. A enfermaria estava enchendo de gente com hipotermia ou quase. Para uma parte do povo, nem a barraca tinha chegado. A organização se pronunciou --e aí, mesmo que o plano B deveria ter sido melhor, tenho que dizer que foi corajoso botar a cara para bater no meio do povo irritadíssimo--e disse que as malas continuariam chegando, e que este processo terminaria por volta das 4h ou 5h da manhã e que eles levariam as pessoas que assim o quisessem de volta para San Martin logo mais.

Este foi um momento crítico. Porque aí, depende muito de como você encara a prova. Se encarar como sou-cliente-paguei-se-vira-nao-vou-esperar-mala-nenhuma, a probabilidade de voltar para San Martin é grande. Se você estiver na enfermaria, também é o caso de pensar e analisar seriamente se você está OK para continuar a prova. Para quem chegou mais tarde --e não pegou o trecho das pedras porque a partir de algum momento a organização cortou essa parte-- era uma questão de pesar a exaustão, frio, o saco cheio de esperar o transporte no escuro por horas.

Eu pessoalmente já incorporei que provas como o Cruce tem perrengues fora do percurso da prova. Sempre. Umas 1.500 pessoas na montanha, a probabilidade de rolarem coisas assim, ou como a queda da ponte por causa da chuva em 2010, é grande. Eu acho que o acampamento faz parte do se por a prova. A organização erra? Sempre erra em algo. Sempre dava para ter feito melhor, planejado diferente. Tem que reclamar? Tem! Mas vale desistir por causa desses perrengues? Eu acho que não.

Porque o frio passa. A raiva passa. A fome passa. O cansaço passa. Desistir não. A não ser que você esteja tomando uma decisão CONSCIENTE, o que significa que você pode lamentar e ficar triste depois, mas não vai se arrepender.

Foi por ter essa sabedoria em nosso grupo que vivemos uma cena curiosa. A Déia, cujo maior temor era o joelho não segurar a onda, estava com algo muito mais urgente para se preocupar: a unha. Porque ela conseguiu detonar as 2 unhas dos 2 pés --você acha que ela fez força no Dia 1? E não era só uma questão de dor, as unhas estavam bem bonitas, naquele tom roxo-esvereado-o-dedo-vai-cair, meio soltas, lindas mesmo. Como ela estava tendo dificuldades em sequer PISAR no chão, tinha decidido que para ela tinha dado, ela ia voltar para San Martin e PRONTO. Aí ela falava isso para Cris e Ari, repetia e elas simplesmente ignoravam. "Tá, vamos dormir e amanhã você vê", foi a única coisa que a dupla Ari concedeu de atenção ao dedo. Como ninguém parecia dar bola para a possível desistência e queda do dedo, a Déia resolveu fazer uma enquete sobre o real estado do machucado. Então pelas próximas horas, todo mundou ouviu a seguinte pergunta: "Olha meu dedo?" seguido de "E aí, você acha que dá???". Como ninguém respondeu diretamente e a maioria desviou o olhar daquela beleza, não teve outro jeito: ela teve que ir dormir.

Porque teve um outro lado nesse caso Crime da Mala Que Não chegou: a união das pessoas. Sério, a gente lê textos sobre solidariedade, companheirismo, compaixão, ajuda ao próximo --mas ver tudo isso acontecendo do seu lado é emocionante e muito legal, sem pieguismo algum.

Porque as poucas pessoas que eram do time dos com-mala, sequer pararam para pensar. Paulinho em poucos minutos já basicamente não tinha mais mala, porque tinha emprestado tudo o que tinha para a galera: meias, calças, camiseta, o que tivesse. Teve a dupla Bob-pai & Bob-filho, ou Los Consiglios, que mesmo batendo dentes de frio, assim que chegou sua mala, já foram entregando tudo para os molhados. Vivis ainda tinha ânimo de perguntar para as pessoas como era a mala de cada um e procurar para os amigos. É claro que você tinha que fazer a sua parte, ou seja, sair andando pelo acampamento amigo avisando que era sem-mala e se alguém tinha algo para emprestar.

No final das contas eu fiquei com calça 1ª pele da Cris (que ela nem coneguiu estrear, tirou da caixa e me deu sem pestanejar), calça impermeável dos Consiglios (que devem ter mais ou menos 1,90m de altura contra meus 1,60m), meia e tênis da Su, fleece da Marri e impermeável meu mesmo, que milagrosamente não tinha molhado no topo da mochila.

Como sem-mala significava sem saco de dormir, ainda tinha a questão do pernoite. A solução veio sem pensar duas vezes da Vivi, Cris, Déia, Ari e cia: vamos colocar os sem-mala nas barracas dos com-mala. Foi assim que eu descobri como as sardinhas em lata se sentem. Aliás, eu a dupla-amiga que me acolheu igual coração de mãe, Ari & Déia. Porque elas abriram mão de uma noite mais confortável para brincar de enlatado comigo, cedendo ainda um pedaço de cada saco de dormir para eu me cobrir (claro que todas estávamos lesadas e esquecemos da existência do bivac de emergência).

Como estávamos deitadas duas para um lado e eu no meio para outro, se mexer era impossível --além do medo de acertar no tal dedo ultra-sensível, do lado da minha cabeça, e a pessoa gritar de dor ou me chutar. O problema é que, mesmo coberto, meu pé continuava bloco de gelo. Simplesmente não esquentava, acho que por conta do friodo lago. Mas eu não ia acordar as meninas para reclamar né? Só que a Ari sacou e perguntou se estava tudo bem. Ótimo, eu disse, só pé congelado. E aí ela fez uma coisa simples e mágica: botou a mão no meu pé. Gente, aquela mão quentinha fez o que os casacos ultratecnológicos não foram capazes de fazer: fez tudo ficar bem, meu pé esquentar e ainda passar uma energia amiga que me fez sentir em casa e dormir.

Dormimos super bem? Não né. Mas conseguimos rir da situação. Ficamos todos mais amigos. Superamos juntos mais um perrengue e somamos mais histórias para contar. E o mais importante: acordamos prontos para o 3º e último dia.
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Cruce de los Andes - Dia 1 - O vulcão


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 16/02/12 às 19:06 na(s) categoria(s) provas
Prova de grande porte tem muito mais obstáculos do que simplesmente o percurso. O primeiro deles foi um imprevisto realmente imprevisível: minha querida dupla, Ceci, teve que parar. Calma pessoas, ela está ÓTEMA, tá TUDO BEM, mas a coisa responsável a fazer naquele momento era essa. E ela fez, o que, acreditem, não foi fácil. Porque nós éramos dupla no Cruce 2010, ou seja, pessoas que não desistem nem com temporais e acampamentos no Vale da M.... Imagina que a pessoa treinou por meses, comprou isso e aquilo para a prova, arrumou malas, fez exames, escolheu hotéis, planejou comidinhas e até já sabia qual a foto que queria tirar no vulcão. Dizer não para isso não é fácil.

A sensação de deixar a sua dupla na mão, mesmo que não intencionalmente, é dureza --eu sei, porque eu estive no lugar dela ano passado, quando não pude ir e deixei a minha então dupla na mão. Mas dupla é dupla, mesmo quando uma das partes fica impossibilitada. E que mesmo não podendo seguir a prova ficou mandando recomendações, bilhetinhos fofos, querendo saber todos os detalhes, fotos e torcendo muito a cada atualização do site. No fundo, ela estava ali do lado, só não dava para ver.

Na véspera, o acampamento estava acesasso, todo mundo ligado no 220 na expectativa do Dia 1. Esse ano a noite de sono no acampamento teve um improve considerável com um item baratex: o colchão inflável. Não era obrigatório, mas era "fortemente sugerido" pela organização. Como eles que montavam e desmontavam as barracas esse ano, um mimo inimaginável, deixaram subentendido que montariam sem super se preocupar em aplainar a superfície do solo. Vulgo leve seu colchão inflável ou corra o risco de descansar em cima de uma raiz ou várias pedrinhas. Por menos de R$30 foi uma aquisição da qual não me arrependi, mesmo sendo um trambolho que ocupava um lugar excessivo na mala. Ah sim, se for levar o seu no próximo Cruce, não esqueça de combinar com os amigos quem vai levar a bomba para encher os danados!

Como o nosso grupo era bem grande (devia ter umas 30 ou 40 pessoas), tinha pelo menos umas 5 bombas --que são mais um trambolho absolutamente desconfortável de fazer caber na mala. Mas precisa né? Então tira no jóquei-pô quem vai levar o negócio. Aliás, essa mala merce um comentário a parte.

Com essa história de aduana pra cá e para lá, esse ano não teve os famosos conteiners, era cada um com sua malitcha. Ou seja, você precisava de uma mala que fosse de preferência impermeável (afinal ela ia rolar de um caminhão para outro, ser arremessada junto com outras 1.500 malas, ficar no sereno e talvez tomar chuva) e que você mesmo conseguisse carregar. Além disso devia caber na mala:
  • suas roupas de acampamento, que se você for sábio vão incluir calça de fleece, impermeável fofinho, croc ou similar e afins
  • suas roupas de prova (incluindo 2 pares de tênis)
  • as comidas e suplementos para durante e pós prova (gel, R4, damascos, sandubinhas, castanhas e tudo o mais que não ficou retido na aduana)
  • o saco de dormir (de preferência -10° C e beeeeem pequeno)
  • o colchão inflável (+ a bomba se vc perdeu no palitinho)
  • seus objetos de higiene pessoal (do babywhipes e protetor solar ao hipoglós)
  • toalha
  • sacos de lixo (não pergunta pra quê, simplesmente leve, é tipo o buff, tem 1001 utilidades)
  • o que mais você costuma levar nessas provas
Você fica expert em arrumar malas! Posso até fazer disso uma profissão, se algum de vocês quiser me contratar. Porque nesse Cruce deu para aprender muito --quem viu a barraca e a mochila eficiente menos-é-mais da Cris sabe do que estou falando, a casinha smurf dela tinha até tapetinho (feito de sacos) na entrada, só faltava o vasinho de flores na janela, um luxo só.

O importante é que tudo isso esteja organizado de forma que você consiga pegar suas roupas de cada dia da prova rapidamente e preparar a mochila da corrida sem traumas. Sem esquecer que na mochila também tem um monte de itens obrigatórios tipo kit de primeiros socorros, bivac, cobertor de emergencia, lanterna etc.

Só aí você pode largar em paz. E lá fomos nós, andando ansiosos por cerca de 2K até chegar na largada oficial. De repente FOI. Começou o Cruce!! Começou na subida, lógico. Morro acima e subindo. Hora de se desligar de qualquer outra coisa que não o momento. Só existe você, o visual, as passadas, as pessoas ao seu redor focadas na mesma coisa, só existe o Cruce. E uma meta, que vai crescendo no seu horizonte: El Mocho, o vulcão.

Nessa longa subida rumo aos 2.260m de altitude do volcán, aconteceu um milagre: eu aprendi a usar o trekking pole (ou bastão de caminhada). Quem lembra dos relatos do Cruce anterior, sabe que eu tinha me dado MUITO mal com este apetrecho tão moderno. Que ele tinha me atrapalhado, irritado e que eu simplesmente não sabia usar. Não sabia, no passado. Porque agora somos grandes amigos. Tudo graças a um toque do Zé, que mostrou como prender e apoiar a mão na alça dos bastões. Parece besta mas fez A DIferença, tanta que nem importa as horas que passamos desfazendo os nós que ele deu no fio do trekking pole na tentativa de deixá-lo mais justinho e eficiente, tipo terapia ocupacional no acampamento.

No caminho fui encontrando várias duplas amigas, ou seja, fui solo-porém-bem-acompanhada. Tipo festinha onde você vai passando e trocando idéias rápidas com a pessoa entre um canapé e outro, conversinha com Betinho + Pedrinho, risadas com Vivi + Carlota, incentivos com a Santuzza + Rafinha. E a cada passo, o topo nevado ia ficando mas visível e mais próximo.

Em algum momento, o sol quente e o calor foram dando lugar a um ventinho. O solo foi virando areia vulcânica negra, até que passamos por uma placa que dizia: Centro de Nieve. Ueba, NIEVE! A partir dali a subida já levava claramente ao topo do El Mocho, que era onde tinha umas formiguinhas minúsculas se movendo --ou seja, ainda tem muuuuito chão até você virar uma delas.

Ali, logo antes de começar a tal da nieve, rolou um rápido pit stop para acrescentar camadas de roupas a minha pessoa. Se eu conseguisse correr feito Cris, Paulinho, Hadi, Lucas & mais um monte de amigos muito mais fortes que eu, provavelmente não ia precisar de tudo isso. Mas, todavia, contudo, entretanto, o vento tava dureza e afinal de contas a placa dizia NIEVE. Aí rolou um fleece bem fininho e um corta vento eficiente, além de luvitchas. Foi perfeito, usei TUDO o que tinha levado na mochilinha --muito menor e mais eficiente do que a que usei em 2012, fiquei super orgulhosa de mim mezzzzz.



Nesse ponto o visual era de outro mundo. Um mar de montanhas atrás, o pico nevado ali na sua frente, céu azulzíssimo, sol, frio, vento. E não é que um cara aponta no horizonte do meu lado e solta um "Olhá lá, O LANIN!!". Cadê a Ari para ouvir essa? RI tanto sozinha ali que o tchico achou que a alitutde tinha me afetado seriamente. O começo do trecho de neve foi emocionante, era muito surreal estar ali correndo. Mas todo esse momento-mágico-de-sessão-da-tarde acabou no segundo em que vi o trecho que levava ao topo mesmo, ao topo de verdade, ao topo final do vulcão. Pessoas, era uma rampa beeeeem vertical. Com neve fofa. Curtinha curtinha, mas vou repetir: beeeeem vertical + neve fofa. Ou seja, escorregava. E dava uma sensação de que se você olhasse para cima caía de costas e rolava até o acampamento lá no pé da montanha. Você pisava e dava uma afundada e uma escorregada para trás. Para mim, a solução foi usar meus novos melhores amigos trekking pools e tentar pisar nas pegadas de gente mais pesada que eu, que escorrega menos.

Depois de uma eternidade, finalmente ele, O Pico Do Vulcão. Com um p...... vento, frio pra dedéu e todo mundo tirando foto sorridente, incluindo eu. Acho que o frio congela a parte do cérebro que identifica que você está numa situação não exatamente tranquila e confortável e só fica a parte que fala SUBIIII!!! CHEGUEI NO TOPOOOO!! (assim mesmo, com vários pontos de exclamação).

Aí você pensa, bem, eu sou demais, consegui, subi, cheguei no topo. Agora vamos embora né? Que nada. Agora você tem que dar a volta no topo. Que tinha uns 9K, 100% nieve, vento de levar Dorothy de volta pro Kansas e um visual mais incrível ainda. E o que você, que não está correndo para pegar pódio faz nessa situação de, vamos combinar, desconforto? Para e tira fotitos, lógico!

Assim a vuelta no El Mocho demorou pra sempre. Não acabava nunca mais e, apesar de ser a mais bela, foi a mais dura de fazer solo. Nessa hora dupla é tudo. Porque o pulmão aperta, dá uns sonos, a volta fica looooonga. Mas como boa Corredora Zen fui seguindo. Lembrei de umas músicas. Lembrei de uns trechos de livros. Lembrei do blog, pensando "ahá, isso aqui eu tenho que contar!". Lembrei de tirar fotos, pedi para tirarem a minha, me encantei com a paisagem.

Até que começou a descida. Ah, a descida. Eita coisinha técnica. Nunca achei que ia ficar com saudades da subida inclinada e escorregadia. Mas fiquei. E olha que eu sou a pessoa que AMA descer. Só que a descida ali era com neve fofa que chegava no meio da canela e na qual você afundava e escorregava. Ali tinha que saber esquiar sem esqui. Quem sabia, descia rápido e se divertindo muito. Quem não sabia, demorou uma eternidade. E quando acabou a nieve começou a pedreira, ou seja, cascalhão de pedras que escorregavam da mesma forma, numa inclinação que fica linda na foto mas é jogo duro na vida real.







Mas como tudo acaba nessa vida, a parte que para mim foi a mais técnica e mais difícil da prova acabou. Tudo o que eu queria era correr. E chegar. Então assim que parou de escorregar horrores, abri a passada e fui, montanha abaixo. Só parei no ônibus que levava a gente de volta ao campamento.

É como voltar para casa. Você só está ali há um dia, mas aquele encontro da galera corredora, a espera pelos que estão chegando, entrar no lago gelado, sentar na areia e relaxar, bater um pratão de massa batendo papo com as amigas, ouvir os relatos de cada um, isso é felicidade, em seu estado mais básico.

Porque o cansaço, a dor, os perrengues, tudo isso passa, mas o dia mais lindo de todos os Cruces, o nós-conquistamos-o-vulcão, essa sensação, é para sempre. Dia 1, seu lindo!
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Cruce de los Andes - Parte I - Pré-prova


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 15/02/12 às 19:47 na(s) categoria(s) provas
Pessoas, eu vi. Eu vi o vulcão de perto e tirei foto no pico nevado para confirmar. Sim, sim, sim, estou de vuelta do Cruce de Los Andes 2012, sobrevivi a mais esta e tenho vááááárias coisas para compartilhar. Então senta que lá vem a história, em partes para não virar um post-romance-russo-tipo-guerra-e-paz.

Como vocês bem sabem, a prova não começa na largada. Começa muuuuito antes, nos treinos, depois no check list e finalmente na viagem. Este ano, a parte viagem teve um stress master bold plus: a zona de abre-e-fecha aeropuertos por conta das cinzas do vulcão (não o que a gente ia subir, claro). Ou seja, você compra a passagem para San Martin ou Bariloche e um tempo depois recebe um aviso que estes aeroportos estão fechados e não têm previsão de abrir. E que ainda não se sabe como vai ser a realocação dos voos e passagens, se vai manter as datas e horários, como vai fazer com os traslados, como fica o hotel, enfim, tudo fica incerto e confuso.

Aí depois de dezenas de email e telefonemas, milhares de pesquisas via internê onde você vira praticamente um expert nesse tipo de viagem, muito respira-no-saquinho,  as coisas se resolvem. Mesmo a solução sendo você pousar num aeroporto que vai precisar de um traslado suave de 6h ou 7h até San Martin de los Andes, que é onde o Cruce começou este ano.

Como ninguém treinou meses para desistir por causa de um enrolation, surgiram soluções mil: teve gente que alugou carro, teve gente (tipo eu) que achou um busão amigo e gente que foi de traslado caro contratado a parte. Eu particularmente fiquei bem feliz com o busão --desculpa, o OMNIBUS, que tinha 2 andares, opções leito e semi leito, filminho em duas tvs (o luxo) e lanchitos durante o percuro. Ah sim, o filme destaque foi 2 Filhos de Francisco dublado em espanhol, priceless!

Para coroar o perrengue pré-prova, claro que no dia que a gente chegou estava chovendo. Muito. O hotel era tipo a 4 quadras do Terminal Rodoviário (onde cabem uns 4 ônibus mais ou menos), mas a tchuva não deixava levar as malas a pé, obrigando a galera a esperar os 3 taxis disponíveis a ir e voltar até chegar sua vez.

Pessoas persistentes que somos, chuva não é considerada obstáculo para passear, então lá fomos nós conhecer alguns points, já que tinhamos alguns dias de folga. Lago gelado na chuva enregelante foi o só o começo. O passeio campeão foi aquele em que iríamos dar um rolê em outro vulcão, o Lanin. "É super legal", disseram. Deve ser mesmo, num dia de sol, quando as pessoas sabem o caminho e principalmente quando dá para VER o Lanin. Porque eu não vi, aliás acho que ele não existe. "Olha lá o Lanin", dizia a Ari apontando para o nada no meio da neblina. Podia estar do lado oposto que eu também não ia acreditar, porque na verdade para qualquer lado que você olhasse tinha uma neblina branca e densa. Tudo mentira esse tal de Lanin.

Já a cidade sede da prova, San Martin de Los Andes, é tipo uma maquete. Pequena, cercada de montanhas lindas, em cada esquina tem loja ou de chocolate, ou de esporte, ou de pesca ou é um restaurante que serve truchas (leia trutchas, ou seja, trutas), javali ou cervo. Como chegamos com antecedência, deu para dar uma aclimatada e descansar da viagem, coisa que eu recomendo MUITO para este tipo de prova: chega antes, que esse stress de chegar na última hora e ter que correr para fazer a inscrição e ver todos os mil detalhes da prova não vale a pena.

Aliás, o kit deste ano estava bacanudo: fleece azul royal que deixou San Martin com cara de Aldeia dos Smurfs, 1ª pele, pratos, caneca, garrafa térmica, buff (aquele paninho de cabeça que tem 1001 utilidades, tipo vira bandana, gorro, protetor de pescoço, lenço legionário e lacinho da Minnie se vc quiser), o abadá da prova (a tal camiseta obrigatória com seu nome e bandeira do seu país que vc vai usar todos os dias), bandeira para pendurar na mochila, foto da dupla no porta retrato e mais umas coisitas de comer e beber. Faltou o chocolate patagônico do outro ano, mas nada é perfeito.

Na 4ªfeira, hora de despachar a mala da prova e começou a gincana: como a largada ia ser do Chile e estávamos na Argentina, a mala ia ter que passar pela aduana para ser levada para o acampamento. Neste caso, a aduana chilena veio até nós, com seu scanner e com as várias informações desencontradas sobre o que podia e não podia levar na tal mala.

"Pode levar enlatados mas não pode levar embutidos". "pode levar na bagagem de mão mas não pode na mala". "Pode levar na mala mas não passa na bagagem de mão". "Queijo não pode". "Queijo lacrado pode". "Bananinha e uva passa pode se for lacrada". "Bananinha e uva passa não pode de jeito nenhum". E assim foi, você escolhia a informação que mais lhe agradasse e acreditava nela. Eu escolhi uma que ouvi da Déia e que dizia que "teve código de barras pode". Achei que era simples, soava lógico e tinha um tom oficial.

Mas na prática era tudo meio que uma questão de sorte. Tirando coisas que obviamente nunca pode em aduanas, tipo frutas frescas estilo maçã, banana, pera, ou carnes e comidas a granel, tudo dependia da pessoa que passava sua mala. Teve personas da aduana que mandaram tirar tudo, do atum em lata ao GU em sachê. Teve uns que consideraram que a bananinha era fruta, outros que não porque era industrializado, lacrado (e tinha código de barras, viu como fazia sentido?).

Uns deixaram passar queijo em embalagem lacrada. Uns mandaram tirar até pacote fechado de bisnaguinha. Uma coisa meio Bola 8 Magica, sabe aquela bola para a qual você faz perguntas aleatórias e ela dá respostas idem? Igualzinho. Descobri que sou agraciada pela sorte, porque minha mala passou sem maiores questões --vou até jogar na megasena a partir de agora.

Aí na 4ª de manhã (a partir das 4h da manhã para os que pegaram a senha cedo demais) começou o transfer para o local do acampamento. Era assim: primeiro um ônibus ou van te levava até o Chile. Ali você descia, fazia a aduana com sua mochila de mão e esperava outro ênibus ou van. Daí você chegava num descampado (que seria o local do acampamento do dia 2) e esperava até 3h pela balsa que ia te levar até o acampamento 1.

O bom é que o dia estava LINDO e o balsão foi engraçado. O visual que ia se abrindo era de cair o queixo, até que teve um momento em que fizemos uma curva e apareceu no horizonte uma montanha enooooorme, de pico nevado, tipo láááá longe. Aí alguém disse: "olha lá, é o vulcão que vamos subir amanhã!". Silêncio súbito na balsa abarrotada de gente. Porque pessoas, o vulcão era ALTO. Parecia meio impossível que no dia seguinte a gente ia estar lá no topo. Deu um frio na barriga geral, mas para disfarçar todo mundo começou a rir e criar piadinhas mil.

No Acampamento dos Smurfs (as barracas eram da mesma cor do fleece azul royal), hora de arrumar suas coisas na barraca, comer, deitar na areia, andar na água, conversar com os amigos e fingir que você não sabia o que te esperava na largada do dia seguinte, a partir das 8h da manhã.


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Corredora Zen :-) testou: Brooks Green Silence + ...


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 23/11/11 às 11:33 na(s) categoria(s) provas
Depois do post anterior reclamando da falta de cores não-rosa para tênis femininos, estou realizada. Pude estrear meu novo e COLORIDO Brooks Green Silence na meia maratona Athenas, que rolou esse fimde aqui em SP.

E colocando em prática novamente minha tese de que tênis bom não precisa amaciar (viu Nishi?), você calça e sai correndo, o Brooks vermelhão & amarelão fez bonito. Comprei na 5ªf, usei para fazer um trotinho de meia hora no sábado e já fui pros 21K no domingão. Resultado: perfeito! Me ajudou a fazer um tempo recorde sub 2h sem bolhas, sem comida de pé no calcanhar ou beiradas, sem atritos machucantes. Nem lembrei que ele existia durante a prova --o que é o ideal quando se trata de tênis de corrida.

O Green Silence tem esse nome porque, segundo a Brooks, tem uma proposta de ser ecologicamente correto. Um aparte: esse terminho me incomoda pacas, apesar da idéia ser bacana. Mas vamos combinar que sustentável MESMO seria correr descalço ou pelo menos não comprar tênis novos e usar os seus até desmancharem. Ao comprar esse tênis, eu já não fui nada sustentável --mas tenho usado ou meus até desmancharem literalmente.

Mas estou saindo do assunto. Voltando ao Green Silence: eco-amigável significa que ele tem solado biodegradável, que 75% dos materiais usados no tênis são reciclados, que as tintas não são tóxicas, que a embalagem tbm é reciclada e vários outros cuidados do gênero. Não vai salvar a humanidade daquele meteoro que todo mundo sabe está chegando, mas é uma ação prática bastante louvável.

Para quem gosta de um tênis mais minimalista --vulgo com amortecimento mínimo-- flexível pra caramba e muito muito confortável, esse é o tênis. Além do detalhe não menos importante de ser BONITO, o que no caso significa cores fortes e design simpático. Deixa seus dedos se mexerem dentro do tênis e o pé articular totalmente, ou seja, nada daquela sensação de que seu pé é uma prancha dura que só articula no tornozelo que os tênis com amortecimento maior me dão.



O complemento do teste foi o porta-chip Switcheasy RunAway Nike Plus iPod AnyShoe Adapter (que nome curto e fácil, não é minha gente?). Eu tenho gostado bastante de usar o SportBand da Nike, aquele reloginho que sincroniza com um chip que vai no tênis e te dá pace, cronômetro, quilometragem, calorias e, claro, a hora. Vulgo um pedômetro chic, primo pobrinho de um Garmin da vida, que tem GPS, mostra o percurso, dá pace km a km e provavelmente ainda de te chama de sua linda nos momentos mais duros do percurso.

O único problema é que o chip foi criado pela empresa para (óbvio) ir dentro dos tênis Nike, que têm um espacinho próprio para isso embaixo da palmilha. Até aí, se eu fosse da Nike faria a mesma coisa, estão certíssimos. Só que eu não sou e tenho tênis de tudo quanto é marca, além de sentir falta de usar o reloginho especialmente nos treinos de montanha, onde Salomon rulez.

A solução foi pesquisar na internê e achar um portachip que resolvesse o problema. Achei na gringolândia, via minha amiga Amazon.com. Dos portachips nacionais não achei nenhum que fosse rígido e desse uma protegida contra respingos e chuvinha, então fui nesse mesmo.

Baratex e eficientíssimo. Não acho que ele segure um mergulho no rio (vamos descobrir o que acontece com o chip quando molha em breve), mas tem funcionado muito bem em trilhas e treinos normais no parque. Vi pessoas reclamando que era frágil, mas comigo por enquanto tudo tranquilo, não quebrou nada nem se soltou do tênis.

Achei ÓTEMA solução para quem usa o reloginho ou sincroniza com iPod/iPhone e quer usar seu Conga para correr.
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Mais essa, São Silvestre?


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 14/09/11 às 19:35 na(s) categoria(s) provas
Vamos falar de São Silvestre? Eu admito que estava enrolando para entrar no tema. Porque ou você discorda veementemente da nova mudança e explica detalhadamente porque ou concorda e aí fala um pouco menos --já notaram como ser contra gera muuuuito mais conteúdo do que ser a favor?

Pois bem, primeiro vamos recapitular essas mudanças. Era uma vez uma prova chamada São Silvestre, que nasceu laáááá na década de 20 naquela época elegante em que o mundo ainda era em preto e branco. Essa prova, realizada no último dia do ano, passou por várias mudanças ao longo dos tempos e até sobreviveu a uma guerra (a II Guerra Mundial). Será que ela sobrevive pós anos 2000 ou acaba com o mundo lá por 2012?

Para mim, a pior mudança foi a que poucas pessoas acham tão terrível assim: a do horário. Porque terminar a corrida a meia-noite é um marco da minha infância e fase Pollyana Moça. O ano novo só chegava depois da São Silvestre terminar e o aniversário do meu pai passar. As doze badaladas chegavam com a TV ligada na corrida. Muuuuuito mais legal do que correr naquele sol de rachar coco das 15h em pleno verão, o asfalto derretendo e soltando aquele bafo quente em você.

Eu sei, corrida a noite significa que um monte de gente vai trabalhar no reveillon. Tem a segurança, os perigos do escuro, a iluminação, a festa da virada e sei lá mil coisas. EU SEI. Mas eu ainda preferia a corrida que literalmente fechava o ano. Me deixem ser saudosista vai.

Ultimamente as mudanças tem sido daquele tipo que deixa um gosto amargo na alma de qualquer corredor. Tipo entregar a medalha antes da prova. Se não tem a menor condição de entregar no final, desencana da medalha. Ou então me explica qual o sentido dela. Porque para mim, ganhar a medalha antes não tem nenhum.

Pessoalmente, gosto muito mais dos números de peito do que das medalhas, então por mim baixa o preço da inscrição e tira a coisinha de pendurar no porta-medalhas. Ou não faz onda e entrega no final mesmo. Pode ter ficado ÓTEMO para a organização e o pessoal da logística da prova, mas para o corredor foi um desrespeito ao sentido de EXISTIR uma medalha, a não ser que passemos a ver a dita cuja como um brinde a mais do kit, tipo a viseira, os papeizinhos de propagandinhas e os sachês engraçados (tipo café, suco, protetor solar e até shampoo já veio).

Mas a cereja do bolo --destacando que eu não gosto de cereja-- foi essa última mudança, que é a prova terminar no Ibirapuera. De novo, o pessoal da organização & logística suspira feliz. E o corredor? Esse, desde que continue se inscrevendo na prova, tudo bem.

Terminar na Av. Paulista fazia parte do lado mítico da São Silvestre. Terminar ali, no meio da muvuca, no meio da festa, era essa mesmo a idéia. Não era acabar em um local sossegado, silencioso e tranquilo (tá, talvez nem tão silencioso e tranquilo assim). É uma prova que marca o reveillon gente! Tem que ter FESTA.

Novamente, eu sei, é o pesadelo da logística. Eu juro que não odeio os profissionais da organização. Sei que prova dá um trabalho dos demônios, a lei de murphy impera, dá mil tilts e pepinos e a culpa é da CET. Mas tem um limite do quanto dá para descaracterizar a prova.

Porque se for seguir apenas o raciocínio da logistica, o ideal mesmo é que a prova acontecesse no dia 30 de dezembro e não no 31. E talvez  fosse melhor que acontecesse em um lugar mais tranquilo, talvez dentro da USP, que além de tudo é mais seguro. Do ponto de vista da logística faria o maior sentido. Seria um sonho. Do meu, seria um pesadelo. E seria outra prova. Para a São Silvestre, seria péssimo, assim como para a comunidade do povo que corre na rua.

Ou seja, não gostei. Adoro o Ibira, mas ali eu me sinto terminando mais uma prova e não A Famosa São Silvestre. Lamento deveras pelo povo que nunca vai conhecer a emoção de terminar no meio do fuzuê. Que não vai saber o que é subir a Brigadeiro quase na boca da chegada. Para mim, o atrativo de participar da prova caiu vertiginosamente. Vou continuar assistindo, não vou negar. Porque adorei correr essa prova e tenho um carinho especial por ela. Mas que perdeu a graça, perdeu.

Claro que se eu fosse absolutamente contra mudanças na prova, deveria também ser contra a participação feminina, infantil e de estrangeiros na São SIlvestre. Mudanças podem ser boas sim, mesmo quando a gente estranha no começo. Mas pessoas, cadê aquele animal em extinção, o tal do bom senso?

Se for para tirar tudo o que caracteriza a São Silvestre como tal, vamos logo mudar de nome. Eu sugiro mudar para Corrida de São Longuinho, que é um santo tão bacana que gosta de pulinhos. Essa prova poderia terminar até no lago do Ibirapuera ao lado do não menos mítico crocodilo e dessa eu super topo participar. Vamos lançar a idéia?



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K42 Bombinhas, ninguém pede pra sair


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 09/08/11 às 20:49 na(s) categoria(s) provas
É pessoas, estou de volta do K42 - Bombinhas. Você segue aquela máxima que diz Quanto Pior Melhor? Se sim, vai A-DO-RAR esta prova, autoproclamada a maratona mais difícil do Brasil. E olha, com razão.

Como toda boa aventura, essa começou antes da prova, com a Questão do Clima. Ou melhor, da dúvida: vai chover durante a prova ou não vai? Os sites meteorológicos passaram os últimos 10 dias garantindo que sim. Parecia pessoal, com sol a semana toda até 6ªf e no sábado e domingo chuva ininterrupta, para voltar o sol a toda na 2ª. Aí já viu: maratona de trilha/montanha com chuva é aquele perrengue. Eu, pessoalmente, estava inconformada. Já me basta ter pego o Dia Maldito do Vale da Merda no Cruce de los Andes (para saber do que estou falando leia AQUI). Na K42 eu queria TEMPO BOM. E praia no dia seguinte.

Mas, como as previsões eram de caos e horror, levei o bendito impermeável, zip locks e afins. Do nosso grupo, só a Ari insistia que ia fazer sol. Teve gente que trouxe até a previsão do apocalipse impressa para provar que ia sim chover. E a loira nem aí, bateu o pé e disse que ia ter sol. E não é que ela estava certa?

No meu celular tem previsão do tempo e acontecia um fenômeno curioso. Há 2 dias que, cada vez que eu atualizava a previsão ela mudava. Para melhor. Na vépera já estava sol com possibilidade de chuva no sábado e chuva mesmo só no domingo. E na vida real? Sol, céu azul e tempo lindo o fimde inteirinho. Eita gente pé quente né ão?

A viagem foi pra lá de suave, uns 50 minutinhos de voo, mais 1 horinha na van do hotel e pronto. Galera nos quartos, animadíssima para o dia seguinte. A largada ficava a uns 300m do hotel, ou seja, era só ir andando até lá. Café da manhã tomado, ansiedade a mil, todo mundo paramentado: mochilas de hidratação ou garrafinhas na cintura, meias de compressão ou não, shorts, calças, viseiras, bonés, cada um no seu estilo.

Eu e a Déia passamos HORAS decidindo se íamos correr de mochila de hidratação ou não. O racional dizia que sim, afinal não somos pessoas que iam terminar a prova em 5h (o recorde feminino é de 4h19) e quando dá sede na piramba é horrível não ter água. Por outro lado, dava MUITA vontade de sair mais leve, tipo só uma caramanhola na cintura e ir abastecendo nos PCs. Mas como nunca havíamos feito a prova, o racional venceu e a mochila foi junto, companheira velha e já testada de provas anteriores. Não me arrependi.

Amanhecer lindo, largada na areia, pontualíssima, as 8h. Decidi fazer uma prova, assim, mais roots, de-raiz, tipo sem-chip-e-sem-relogio, fazendo estilo nem-ligo-pro-tempo. Traduzindo: meu relógio morreu antes do café da manhã (para ressuscitar no dia seguinte só).

Larguei levando meu combustível: água na mochilinha, damascos, castanhas, sal e gel nos bolsos. E muita animação. Lá pelo km 8 começou a 1ª piramba. Pela altimetria, seria a pior de todas, mas na prática não foi porque era no começo, todo mundo animadíssimo e ainda cheio de amor pra dar. E subiu. E subiu. E subiu mais um pouco, até que começou a descer. Como eu não sou assim o papa-léguas das subidas, consegui compensar um pouco (eu disse um pouco) nas descidas e passei pessoas enquanto despencava ladeira abaixo.

Agradeci mentalmente céu azul e sol a prova inteira. Em cada trecho, pensava "imagina como seria fazer esse pedaço na chuva?" e ficava feliz. Porque seria péssimo. Pessoas que correram essa prova com chuva ano passado: parabéns, vocês foram guerreiros e devem ter penado MUITO naquelas erosões, barrancos e pirambas cheios de raízes, pedras e areia. Já eu, zen chuva nenhuma, me distraí olhando o mar azulzinho e o visu colorido e sequinho do percurso haha. Que lindo né? Pois é, mas na hora em que você está ali fazendo força, esse pensamento tão caridoso em relação ao próximo não ajuda em nada.

Mas posso confessar uma coisa? Um dos lugares que mais sofre foi.... no plano. Na praia, correndo numa areia que nem era tão fofa, num retão. Tinha só uns 4 ou 5K, mas para mim pareceu que tinha uns 15K. Gente, a praia não acabava nunca. Você corria, corria, corria... e o final continuava laááááá looooooonge. Nem o mar de cenário de filme ajudava mais (até porque você só OLHAVA aquela água refrescante toda mas continuava correndo com o sol na cachola).

Aí uma hora chegou, junto com a metade da prova. Nos 21K eu estava cansada, mas feliz. Tomei um isotônico daqueles efervescentes. Teoricamente tinha isotônico no PC, mas eu não vi, o que pode ter sido totalmente uma incapacidade minha, já que nas provas os neurônios vão para um centro de meditação distante e lá ficam até tipo o dia seguinte ou mais. O que eu vi foram bananas amigas, que viraram um lanchinho rápido antes de seguir adiante, no melhor espírito bandeirante desbravador.

E foi aí que a prova realmente me pôs a prova. Porque pessoas, na K42 de Bombinhas, a 2ª parte da prova é BEM mais difícil que a 1ª. Então se você terminou os 21K se achando bem na foto porque subiu e desceu todas aquelas pirambas, segura a onda que agora que a conversa fica séria de verdade.

Juro que não sei dizer se as subidas são piores ou se nem tanto e são os km acumulados que fazem parecer pior. Na prática, não faz a menor diferença. No briefing do dia anterior, o moço que descreveu o percurso da prova ia falando assim "ah, aqui é só 300m, a trilha é fácil. aí sobe aqui, desce ali, só 200m, é tranquilo. aí pega esse trecho de praia, é bem fácil", como se a prova fosse ridícula de simples e a gente que dificultasse tudo. Aí quando ele chegou na parte da 2ª etapa começou um tal de "ah, aqui tomem MUITO CUIDADO que tem muitas raízes. aí vira, sobe, desce, sobe de novo e tomem MUITO CUIDADO que escorrega bastante. aí sobe, sobe, desce, vira e MUITO CUIDADO com as pedras! se cair o bombeiro não resgata hahahaha é brincadeira". Ou seja, meu cérebro gravou que na 2ª parte = muito cuidado.

Gente, o moço estava certo. 2ª parte = muito cuidado. Com chuva então, melhor partir para o esquibunda, aquela modalidade onde vc senta e vai deslizando ladeira abaixo, conhece?

Pois bem, depois de 34km chegou o outro grande PC, muuuuito bem vindo. Isotônico + melancia, uma delícia naquele sol. Depois dali, teve a 1ª alcinha. Alcinha era um vai-e-volta obrigatório, com o povo da organização no estilo pegadinha, anotando todo mundo que passava para nenhum espertoman inventar de cortar caminho. Foi meio chato por vc encontrava o povo voltando enquanto vc estava indo --foi ali que encontrei a Déia e o Harry, e logo depois, na minha vez de voltar, a super Naomi.

Mas o visual da tal alcinha compensava, então tudo bem. Mas a vida não era só agruras, que teve a praia de Mariscal, cheia de incentivos visuais. Lá pelo km 36, lembrei do pão de forma que eu tinha roubado do café da manhã e das instruções da Ari para comê-lo depois do km 33. Não tive dúvidas, pesquei na mochilinha e comi. No começo foi meio difícil de comer, mas assim que bateu no estômago, hmmmmmm! Fez um bem! Parecia que eu tinha comido um daqueles pacotinhos de vida de videogame.

E teve mais uma alcinha. Essa me deixou meio de mau humor momentâneo, porque achei ruim no final da prova fazer esse vai e volta. Desnecessário, foi o que pensei na hora, podia fazer a gente não repetir percurso. Mas tudo bem, faz parte do perrengue domar a mente também.

Aí a desgraceira continuou, até que chegou o km 38. Que foi a hora que eu pensei "po, agora tá acabando! faltam 4K só! beleza!". Ah, a ilusão dos ignorantes. Porque foi aí que a casa caiu. Começou, para mim pelo menos, a pior subida da prova. Na verdade era mais baixa que a 1ª, só que parecendo ser muito, mas muito, muito pior.

Porque você não espera um paredão no km 38 né? Nuossa, você não parava de subir. No meio tinha uns bombeiros engraçadinhos falando "vamo lá, só falta 3k", semi-deitados descansando na sombrinha. Vontade de
arremessar a dupla do barranco, mas como eu sou zen, sorri docemente, enquanto visualizava os caras escorregando morro abaixo. É, eu sei, a intenção deles era boa. Mas nós sabemos aonde é que está cheio desse tipo de intenção né?

Quando essa subida master blaster plus acabou, começou a descida, claro. Pessoas, o que era aquela descida? Íngreme até não poder mais, com milhões de raízes, pedras soltas e areia. Ah sim, e ladeada de espinhos gigantes. Quase um videogame mesmo. E quando você vencia essa pirambeira, com as pernas moles, era hora do que? De atravessão o costão! Pedras gigantes onde você tem que dar passos idem e tomar cuidado para não cair laáááá no mar. Onde o bombeiro não vai, lembra? (tá, eu sei que era brincadeira, do tipo brincadeira de terror). Mas o visual do costão....  fazia você esquecer tudo isso, porque era lindo DEMAIS.



Uma hora, o costão também acabou. Aí já era a chegada certo? Errado! Aí era a hora de subir escadas! Porque suas pernocas estão ótimas para subir escadarias nesse momento né? Ainda tem um deque de madeira, que tem degraus. Poucos, mas que no km 41 parecem gigantescos. aí finalmente é a praia final, aquela onde tudo começou. E corre pra chegada e para as amigas que estão ali pulando e gritando para você.

Pessoas, é BOM DEMAIS ter um apoio amigo nesse final, faz uma diferença. Você se sente compartilhando a chegada com todo mundo. Ah sim, e também as pessoas amigas gritam e evitam que você passe a chegada, coisa que eu quase fiz. Os tais neurônios meditantes. Aí você passa o portal (no meu caso em 6h39) e o mundo para de girar. Tudo fica em câmera lenta, enquanto você pega medalha, camiseta, frutas, água. E só volta a girar quando você reencontra o povo.

A vida é bela, a prova acabou, aí é só aproveitar o final de semana. Que aliás, deu praia no domingo. Valeu Déia pelos longões, Ari pela dica preciosa do pãozinho, Carlinha e o isopor profissa cheio de bebes na chegada, a dupla campeã-medalha-de-prata Lu & Naomi, Aloysio, Cris que não tava ali mas era como se estivesse, Belô, Eric e galera que deixou essa viagem mais divertida ainda. Todo mundo sofreu, mas ninguém pediu pra sair. Agora, dá licença que eu vou descansar um pouquinho.
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Corra da sujeira!


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 13/06/11 às 14:28 na(s) categoria(s) provas
Semana passada estava eu, feliz e faceira, navegando pelo FB (FB=Facebook) quando me deparei com umas fotos que tiraram completamente meu bom-humor. Antes que vocês pensem alguma bobagem, deixa eu contar logo: eram fotos de uma praia. Vazia. Suja.



Não era um vazamento de petróleo. Nem um lançamento clandestino de dejetos químicos ou radioativos. Era o dia seguinte de uma prova de corrida. Na ressaca do pós-prova, a areia coalhada de copinhos plásticos. As fotos do desastre são do Kadu Mattar, que gentilmente cedeu as imagens p/ publicação neste blog e conta que este foi o visual do day after da prova de revezamento Bertioga-Maresias.

Fiquei chocada. Acima de tudo, me senti ingênua e meio burra. Sabe aquela sensação de criança quando descobre que Papai Noel não existe? Um misto de espanto-raiva-ressentimento-vergonha. Porque eu realmente achava que fazia parte da organização de qualquer prova recolher todo o lixo deixado pela corrida.



Mas antes de começar a atirar pedras e copinhos plástico na organização da Bertioga-Maresias ou jogar garrafas nos corredores e pedir o fim das provas de rua, trilha e montanha, vamos fazer diferente? Vamos mudar essa foto. Como? Falando sobre o assunto, divulgando, checando com as organizações das provas e principalmente sendo mais conscientes como corredores --pq também é fácil jogar toda a culpa na organização né?

Eu acredito na máxima Gentileza Gera Gentileza. Assim como tenho certeza que Intolerância Gera Intolerância, então só reclamar, xingar muito no Twitter e no Face ou desejar que todos os corredores virem praticantes de tênis de mesa ou curling só vai gerar mais respostas negativas e provavelmente nenhuma mudança bacana.

Então, ao invés de começarmos uma caça às bruxas da corrida, vamos dar uma olhada no quadro todo. Eu, como sempre, só posso falar da minha experiência pessoal, mas a verdade é que a corrida vem crescendo cada vez mais e as provas não vão diminuir em número, ao contrário. Fora do Brasil, elas estão muito mais maduras e essa parte da limpeza é levada bem a sério.

Nas provas que corri, vi várias formas de lidar com a questão da sujeira gerada pela corrida. Já corri prova de trilha onde a organização pediu para que todos jogassem os copinhos vazios no meio fio da estrada de terra. Explicaram que era inviável colocar latas de lixo ao longo de todas as trilhas (e latas de lixo em nº suficiente, pq 1 lata enche rapidíssimo), então preferiram colocar os PCs de água em estradão de terra e ao final da prova passar um arrastão da limpeza fazendo pente fino. Pediram que as pessoas guardassem os sachês vazios de gel e que jogassem fora nos pCs (onde tinha lixo) ou no final da prova. Essa eu tive oportunidade de ver depois e cumpriram a palavra, não vi 1 copinho esquecido.

Quando a prova é de longa distância -- tipo 50K ou mais -- especialmente se for prova de montanha onde até nos 21K é praxe correr de mochila de hidratação, o que meio que resolve o problema. Com mochila não existe essa de copinho, a não ser que vc pare e beba nos PCs (quando existem) onde a idéia é mesmo fazer um pit stop e reabastecer. Mas se tem PC em corrida de montanha (como tem nas prova do circuito North Face Endurance Challenge) tem lixo lá. E eles avisam que quem for flagrado jogando um papelzinho sequer no chão é desclassificado na hora.

Aliás, já li isso no race book de provas brazucas também, o problema é que aqui tem essa maledeta mentalidade do "se dar bem as custas de alguém", sendo o alguém no caso o meio ambiente. Aqui tem espertoman em todo lugar, até nas provas de corrida, que se acha o máximo porque não foi pego fazendo algo errado.

Quando a prova é de revezamento e tem carro de apoio (que apóia mesmo), fica mais fácil. Porque aí as águas e isotônicos podem ficar em garrafinhas dentro do carro ou carros de apoio. Para quem nunca viveu a situação funciona assim: o corredor da vez corre e, em algum momento pré-combinado do percurso o carro de apoio tá ali, alguém do apoio sair correndo com as garrafinhas, corre ao lado do corredor enquanto este bebe, pega as garrafinhas e volta para o carro. O único rastro que fica é o suor dos corredores no chão.

Tem provas que são tão preocupadas com isso, como o Columbia Cruce de los Andes por exemplo, que nem levar gel em sachê pode. Porque eles sabem que em todo lugar tem um espertoman. Gel, só se estiver naquela garrafinha própria. E ai de você se começar a jogar embalagem de comida ou suplemento no chão.

Já para provas mais curtas, acho que tem que rolar uma logística mais pesada da organização. Porque não faz muito sentido vc correr uma meia maratona ou maratona de rua de mochila. Tem corredores super conscientes que correm com pochetes e saquinhos, mas eu não acho muito realista querer obrigar todos a correr com copos vazios -- com embalagem de gel usada acho que até dá, mas copos, duvi-de-o-dó.

Assim como esperar que em prova de trilha tenha 6 latas de lixo no meio da single track a cada km. Então qual a solução? A primeira chama-se logística. E serve tanto para a organização quanto para os corredores. Porque nenhum PC está onde está por acaso, tem que levar uma série de coisas em consideração, tipo como os equipamentos vão chegar até o PC, distância etc etc --incluíndo o lixo.

A segunda chama-se autoconsciência. E significa seguir alguns passos básicos e acima de tudo, usar aquele nosso amigo esquecido, o bom senso:

1) Guardar a embalagem do gel ou comida no bolso, mesmo que melecada, se não tiver um lixo perto na hora que vc consumí-la. Sem nojinho minha gente!

2) Ler o regulamento/race book e, se não tiver nada lá a respeito e tiver postos de água e isotônico, perguntar como é o esquema de descarte dos copinhos e a limpeza posterior.

3) Se ver alguém tacando lixo no chão, dê um toque. Mas um toque NA BOA, nada de fazer um discurso ecochato ou se achar no direito de ser grosseiro. Lembre: gentileza gera gentileza, grosseria gera grosseria. Se o meliante for um spertoman sem noção, amaldiçoe mentalmente, deseje que a pessoa entre em combustão espontânea e seja um Ser Superior: recolha vc o lixinho.

4) Converse com outros corredores sobre o assunto. Acredite, muita gente NUNCApensou sobre isso, o que é muito diferente de fazer de propósito.

5) Não vire Fiscal da Vida Alheia, que é MUITO MALA e não conscientiza ninguém. Compartilhe com quem está de ouvidos e mente abertos, faça sua parte, reclame quando for o caso e seja feliz.

Que venham mais provas - com consciência e sem sujeira!


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Corrida boa é corrida divertida


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 08/06/11 às 15:00 na(s) categoria(s) provas
Domingo passado foi um desses dias que parecia destinado a dupla cobertor+filme. Um friozinho de 8ºC, céu cinza chumbo, daqueles que ameaçam chover a qualquer momento, vento gélido e a hora ingrata, 7h30 da matina. O que uma pessoa razoável faria?

Ficaria em casa, lógico. Ao contrário de mim, que fui para uma provinha 10K que aconteceria a 9K de casa, na USP, com o singelo nome de Desafio do Hipopótamo. Sorte minha.

Pra começar, a prova tinha um motivo bacana de acontecer - ajudar a Associação Dr.Inho, que cuida dos dentes de crianças carentes em tratamento de câncer. O logo da associação é um sorridente hipopótamo, daí o nome da prova. A categoria principal era para crianças acompanhadas de adultos --tipo vá com seu filho, sobrinho, priminho ou pegue emprestada uma criança alheia. A dupla, de acordo com a idade da criança, tinha uma série de desafios a cumprir, tipo jogar frisbee, andar na slack line, corrida do ovo e por aí vai.

Quem é criançaless (vulgo sem criança presente) como eu, podia levar a sua criança interior e ir de dupla adulta feminina, masculina ou mista e correr 10K com outro tipo de desafios: passar em 14 pontos da USP e ir picotando o mapa em cada uma delas. Tipo gincana, sabe assim? Eu fui de dupla feminina.

Chegando lá, o encontro com os amigos da corrida, em peso lá dando uma força para a Dr. Inho. Mas se engana quem pensa que o pessoal estava lá todo blazé, preparado para dar um passeio tranquilo entre as estátuas uspianas. O povo estava com sangue-nozóio: teve dupla que no sábado foi lá estudar "os pontos", teve gente que madrugou só na ansiedade de chegar na frente da dupla rival --isso porque são todos super amigos e não tem premiação em dinheiro nem nada assim.

Na largada, a 1ª boa surpresa: abriu o sol. O pelotão da morte saiu ensandecido na frente, disputando a prova como se fosse a maratona olímpica. Claro que isso não impediu umas duplas voadoras de se perder nos tais pontos, com direito ao melhor episódio da prova: achar que as duplas adultas também tinham que jogar frisbee.

Diz a lenda que um grupo de criancinhas viu um corredor alucinado chegar voando, arrancar o frisbee das mãos delas, jogar, devolver e sair voando novamente --e ainda conseguir pegar pódio no final.

Já eu e minha dupla, a Gláucia, que sabe TUDO de navegação, curtimos muito. Fizemos força, gastamos neurônios tentando entender qual ponto era aquele e qual o nº para picotar no mapa, contamos estátuas, respondemos perguntas nos PCs e ainda erramos o funil da chegada no final. Mas nos divertimos como crianças durante o processo inteiro.

A diversão, porém todavia contudo entretanto não acabou aí. Chegou a hora do pódio, para a qual só ficamos porque ainda estávamos juntando o povo para decidir onde tomar café. Aí nos falaram "ó, acho que vcs pegaram pódio". "Ah vá", pensei. Mas resolvemos esperar para ver.

Aí nos chamam em 3º lugar. Legal, bacana, eba! Aí chamam em 2º uma dupla que chegou beeeeeem depois da gente --e que, honestíssimas, confirmaram o erro. Troca, sobe, desce, vai: subimos para 2º lugar. Aêêêê!! Vice-campeães! Ficamos felicíssimas, tiramos foto no pódio e fomos tomar café. Só para receber uma ligação do pessoal falando "onde vcs estão?? a correção não tinha acabado, vcs na verdade ganharam a prova! volta aqui para pegar o prêmio!". Naãããão!!!!!!!!!!

Pela primeira vez na vida pego 1º lugar numa corrida, o lugar mais alto do pódio e... não tiro nem uma fotinho para mostrar na casa de repouso quando for velhinha?? Ninguém merece. Mas, como sou uma Pessoa do Copo Cheio (o oposto é Pessoa do Copo Vazio, daquela pergunta clichê se o copo para vc está meio cheio ou meio vazio), dei um jeito. O nome desse jeito é Photoshop, o Amigo de Todas as Fotos.



Agora sim, um final perfeito para uma prova divertidíssima, que provou que dá para juntar competitividade, risadas, navegação, corrida e muita diversão em apenas 10K.
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Quanta lameira, guajira, quanta lameira


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 31/03/11 às 17:26 na(s) categoria(s) provas
Sábado foi dia de...subir morro! Quem fez a edição Paranapiacaba do circuito de Corridas de Montanha pode confirmar: tinha lameira para todo mundo. Mas vamos primeiro entrar no clima. Fecha os olhos e visualiza: sabadão meiodia, sol quente a pino em Sampa, você arruma sua mochilinha com roupas secas pós-prova, algo para comer antes e depois, um gel para durante, uns trocadinhos e muita animação.

Já devidamente paramentada - meu querido chuteira nos pés (para saber o que é o chuteira leia esse review AQUI), shorts, camiseta, relógio - fui encontrar o povo. Sim, porque ultimamente eu ando passando qualquer prova onde não vá uma galera junto. Nããããoooo, não é porque eu goste de uma panelinha, é que o antes e o depois quando você vai de turma são muito, mas muito mais divertidos.

Ter gente para ficar comentando a prova a exaustão na volta não tem preço. Experimenta fazer isso com sua respectiva cara metade ou mãe/pai/irmão/amigo/amiga que NÃO corre e veja o mar de tédio inundando os olhos da pessoa enquanto você se entusiasma contando que no Km 5 tinha mais um rio e aí você foi e... Meia hora depois você ainda está falando da hora em que tomou o seu gel e o pobre ser ouvinte já está com fazendo cara de janelas windows passando, sonhando com a hora em que finalmente você vai chegar ao fim da narrativa. Poupem seus entes queridos, pessoas, comentem as provas em detalhes só com quem corre ou adora corrida. Ou vá correr com os amigos e comente com eles mesmos se reidratando no bar da esquina.

Voltando ao sabadão de sol, fomos nós em 4 carros estilinho comboio para Paranapiacaba. Na medida em que vc avança, a neblina vai se adensando, até um momento em que você se sente em pleno fog londrino. Depois de muita rotatória, viradinha, saidinha e pistas estreitas, chega o pulo do gato. Se vc está com alguém como a Ari, que sabe os caminhos e atalhos para chegar literalmente dentro da pracinha onde é a largada, vc está bem na fita. Se não, o pior cenário é parar um pouco antes e ter que atravessar o trilho do trem a pé para chegar até a largada.

como dessa vez chegamos bem cedo para garantir, foi assim quase que como ir a um daqueles eventos com o Amaury Jr: você vai andando, sorrindo, circulando e conversando um pouquinho com um monte de gente. A diferença é que, ao invés de vestidos Dolce & Gabanna as pessoas usavam tênis, camisetas e mil acessórios divertidos tipo bandanas, relógios que falam com você, meias de compressão e luvinhas. Luvinhas? É, depois eu explico. Aliás, foi ali que conheci o Shigueo, amigo-blogueiro-corredor (deste blog AQUI) que tinha vindo conhecer a prova e fazer a despedida do par de tênis que ele escolheu para correr --vou te contar, vc foi corajoso de entrar naquela lameira com aquele tênis pneu-careca-style, colega Satrijoe.



Paranapiacaba é um lugar fofo onde sempre tem uma charmosa neblina de montanha e muitos trens. Dessa vez o centrinho se preparou melhor e tinha desde almoção self service para quem não liga de bater um pratão de comida antes de correr (e tem bastante gente estranha assim) até um café simpático que servia desde pão de queijo até bolo caseiro. Ah sim, e se vc é como eu, um cafezinho puro sem açúcar antes da prova.  

Eramos em pouco mais de 10 pessoas, tanto com gente que voa na trilha como com pessoas que estavam literalmente estreando nas provas de corrida. Na hora da largada, as 16h, aquele embaço básico enquanto todo mundo se espreme na muvuca. O pessoal da organização falou bastante sobre alguma coisa ao microfone, acredito que era importante e tinha a melhor das intenções, mas tenho que confessar que não ouvi uma palavra. Não por mal, mas porque dali da largada simplesmente não dava para escutar o que o moço dizia. A boca dele mexia, dava para ouvir algum som, mas entender que é bom, nadica de nada. Quem ouviu por favor me conta!

E aí, foooooooooooooooooooonnn!!! Largou! São 12K, entao o negócio é fazer força. Porque essa prova tem subidas e não são poucas. Tem muita single track e uns 4 riozinhos para passar. Esse ano as águas tinham subido e teve uns trechos onde chegou tipo logo abaixo do peito --mas como eu tenho 1,60m não é nada que vc deva se preocupar, certo? Atravessar rio, nessa prova, é assim: em uns 3 lugares vc pula do barranquinho para dentro do rio, dá uma meia dúzia de passadas e pula barranquinho acima na outra margem. Em outros lugares você tem que correr um tempinho dentro do rio mesmo, aliás, subindo o rio.

Aqui posso orgulhosamente relatar que minha corrida dentro de rios melhorou horrores, saindo de inexistente para um avanço até que eficiente. Não rápido, mas eficiente. Nada como treinar para os 50K da NorthFace e para o Cruce, não é mesmo? Tantos picos do Jaraguá, e pirambas em Atibaia tinham que servir para alguma coisa mais, certo?

Passei pisando firme no meio da lameira -que uma pessoa assustada atrás de mim cogitou ser areia movediça, o que dá uma idéia do estado da lama- correndo mesmo com os pés submersos na gosma marrom até o tornozelo. E o Speedcross fez bonito de novo, o bichinho gruda na terra e vc NÂO ESCORREGA. Ultrapassei gente que era óbvio que corria mais que eu --só porque a pessoa estava de tênis que escorregava muito e eu lá, toda faceira com o chuteira. Fora que tênis de trilha é uma maravilha: pode estar enlameado até as tampas que vc entra com ele na água e ele sai zero bala, levinho, não fica resquício nenhum de lama.

E aí vc entendia porque tinha um povo de luvinha. Para segurar nas pedras na hora de subir, porque realmente tinha vários pontos onde precisava fazer uma subida mais agressiva, tipo a última saída de dentro do último rio. Eu, pessoalmente, to fora de luvinha, para mim é meio over --mas se funcionou para as pessoas, dou o maior apoio para elas.

No fim da prova o tempo ainda abriu, e o fog cedeu espaço para um solzito, deixando visual da serra ainda mais bonito. Como vc termina a prova numa descida, dá para se empolgar bastante e acelerar TUDO. Para mim rolou uma endorfinada e eu terminei feliz, com o povo que chegou antes de mim (as amigas que voam nas trilhas) fazendo o maior festa. Acreditem ou não, melhorei meu tempo em uns 10 minutos, algo que não acontecia desde aquele começo de corrida (vulgo primeiros 3 a 6 meses), onde você vai melhorando seu tempo em muito minutos e não como hoje, onde baixar segundos é uma dificuldade ENORME.

Pós prova, fiz meu lanchinho feliz --umas mini batatas cozidas + sandubinha de queijo cottage com pimenta calabreza e azeie que eu tinha trazido-- enquanto esperava o resto do povo na chegada. Porque quando vc vai em grupo é assim: vc fica ali plantado na chegada até a última pessoa do grupo terminar, e grita pula e comemora a chegada de cada um, na maior festa. Quanto todo mundo dos 12k e 6K chegou, ficamos ali sassaricando no centrinho até todos trocarem de roupa --ah sim, não esqueça de levar saco plástico para as roupas quanta lameira da prova.

Cheguei em casa no final da tarde, acabada e feliz. Só para dormir e, no dia seguinte as 7h15, mudar de estação e começar um workshop intensivão de 1 semana de ashtanga yoga. É duro mas é bom, sabe como é? Da lama para o mat :-)

Ah sim, e desculpem o trocadilho infame do título. É que quando eu era uma corredora zen mirim eu ouvia o cara cantando Guantanamera, guajira, guantanameeeeira e achava que ele, na verdade, cantava "quanta lameeeeeeira, guajira, quanta lameeeeeiraaaa". Acharam bizarro? Pois a minha irmã, tipo 6 anos mais nova, tinha certeza que o certo era "quanta cadeeeeeeira, guajira, quanta cadeeeeeira".

Até hoje acho nossas versões de músicas muito melhores do que as originais.
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50K e não se fala mais nisso


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 07/10/10 às 16:47 na(s) categoria(s) provas
Desde o final do mês passado que eu venho tentando fingir que nada demais vai acontecer em dezembro. Que só vai rolar uma prova, assim para fechar o ano. Na verdade, o que eu venho tentando ignorar é a distância que eu vou correr nessa prova: 50K. Na hora de pensar em cinquenta-quilômetros minha mente abstrai, tipo 50 é só um número!

Só que agora a planilha aumentou o volume com força total e não dá mais para ignorar, então chegou a hora de abraçar o capeta e entrar na imersão total dessa que será a última etapa do Northface Endurance Challenge, que acontece em San Francisco / CA no começo de dezembro. É uma prova de montanha, daquelas que não tem trechos planos. 50 K. Sem trechos planos. Dá para entender porque o cérebro dá uns tilts?

Então porque eu vou fazer essa prova? Bem, para começar porque é linda. Depois, para ver como é correr uma ultramaratona. Nada de asfalto, visual estonteante, frio, viagem, muitos longões, treinos legais com pessoas idem. Resumindo, é a minha cara!

 

De volta aos treinos no Pico do Jaraguá, Atibaia - juro que já estava com saudades, desde os treinos p/ o Cruce no ano passado que não fazia esse tipo de intensivão. O maluco vai ser treinar no calor do verão brasileiro - isto é, se fizer calor, já que as estações estão malucas ultimamente - e cair no meio do inverno, se bem que inverno californiano não é tão inverno assim.

Minha rotina de treinos é a dupla corrida + yoga. E só. Só que são 5 dias de corrida e 4 de yoga, então na verdade nem sobra muito tempo para outras coisas, digamos, esportivas. Mas para mim, essa é a dupla perfeita. Sem musculação, sem pesos. Só caminhadas diárias com a Mindoca e uma eventual bike recreativa.

Antes que alguém venha me dizer que yoga não fortalece, que é só alongamento, deixa eu colocar alguns pingos nos is. Primeiro, eu não sou treinadora nem professora, ou seja, compartilho aqui o que funciona pra MIM. Ou seja, se para você é diferente tá tudo bem, Vive la différence! Yoga, para minha singela pessoa, não entra na categoria esportes, fica mais na área de modo de vida. Meu esporte é corrida, ponto! Eu experimentei várias linhas de yoga antes de achar a que eu hoje chamo de minha, que é o ashtanga. De novo, não é que eu ache que qualquer outra linha é pior, é que essa eu me identifiquei na 1ª vez que fiz, deu aquela sensação de era-isso-que-eu-procurava-como-eu-não-descobri-isso-antes.

Porque eu não funciono bem com linhas mais calmas e meditativas, ou aquelas onde existe muita permanência nas posturas (e que também fortalecem muito!). Eu gosto de práticas que realmente usam corpo, que exigem do físico. Senão eu não seria corredora né? Então essa que eu faço é assim, práticas de 1h30 e quando vc sai dá para torcer a camiseta ou pelo menos suar o mat (mat = tapetinho do yoga)

Tudo isso para explicar para vocês porque yoga é a minha fonte de fortalecimento e alongamento para a corrida. Porque funciona. Porque eu tenho certeza que é parte essencial de eu nunca ter me lesionado até hoje (dor é outra coisa, dor aqui, dor ali, dor acolá faz parte, você ignora). Não que não possa acontecer, mas tenho certeza que o yoga deu uma boa fortalecida mas sem encurtamento nos tendões, ligamentos e músculos. E se acontecer, tenho certeza que o yoga vai ajudar a recuperar mais rápido.







Ah, e para quem estiver cogitando em fazer o mesmo, vale um alerta: demora para vc acostumar com a prática, quero dizer, para vc realmente conseguir fazer o suficiente de forma a fortalecer, alongar e limpar (sim, pq a idéia da 1ª série é dar uma desentoxicada geral em vc). Ou seja, não é uma boa idéia começar a praticar faltando 1 mês para a prova, vc só vai se cansar MUITO e não vai dar tempo de usar como preparo. Pense em no mínimo 3 ou 4 meses, mas a coisa só fica boa mesmo a partir de 1 ano de prática -- meio que como a corrida né?

Enfim, findo o Momento Yoga, quero dizer que estou ANIMADÌSSIMA com a perspectiva de correr uma ultra. Ainda mais que li recentemente o Nascidos para Correr, do Christopher McDougall, um livro que te entusiasma e te deixa com a certeza de que 50K é tipo tranquilo e o mínimo que qualquer ser humano deveria ser capaz de correr sem traumas. Se quiserem, de repente posto até um review do livro aqui.

Como toda prova maluca que eu entro, tudo começou com a Cris, minha treinadora, que tem o dom de por pilha em tudo mundo. Ela falou dessa prova -- já tinha rolado a etapa de NY, que eu não tinha como ir-- e me deu uma vontade imediata. Ela falou que tinha várias distâncias: 10K, 21K, 42K, 50K, 80K... Aí pensei bom, meia-maratona já fiz várias, pra ser desafio tinha que ser mais! Mas depois vi que era prova de montanha com altimetria tipo montanha-russa e comecei a repensar.

Aí caí na besteira de perguntar pra Cris o que ela achava, até pq ainda tinha a opção 42K. Eu comecei a perguntar "Cris, você acha que eu devia faz.." e ela me olhou, tipo ignorou o resto e só falou "50K". Ponto. Assim, sem nenhum tipo de argumentação, na linha nem-sei-porque-vc-perguntou. Então tá né? 50K e não se fala mais nisso.
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A mochila do Cruce e outros dilemas


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 24/09/10 às 19:07 na(s) categoria(s) provas
Pessoas leitoras deste blog, vcs não sabem como é legal quando acontece de conhecer alguns de vcs. Seja por email, twitter, msn, facebook ou pessoalmente é sempre muito bacana quando Os Leitores deixam de ser uma grupo de silhouetas difusas e passam a ter nomes, caras e dúvidas, muitas dúvidas :-) Adoro! Só me deem um desconto que nem sempre consigo responder na hora - afinal, tem que garantir a ração da Mindy e do Blacky.

Para vcs verem como é verdade, esses dias recebi um email da Claudia, que está na maior pilha para participar da próxima edição do Cruce --o Columbia Cruce de los Andes, que eu fiz este ano, AMEI, pretendo fazer novamente ano que vem e que rendeu vários posts, a começar desse aqui.

A Claudia perguntou coisas sobre a mochila e as questões práticas dessa prova, e eu achei que de repente outras pessoas poderiam gostar de entrar nessa discussão também. Sim, porque vamos lembrar que eu não sou nenhuma "otoridade" no assunto, só posso compartilhar o que funcionou para MIM. De qualquer forma, Claudia, esse post é para vc!

A primeira dúvida da Claudia é sobre ela, a mochila do Cruce, sua inseparável companheira pelos 3 dias da prova. Como é algo que vc vai carregar o tempo todo nas costas, não despreze a escolha da mochila. E Claudia, se segura que eu tenho uma notícia: minha mochila não é grande! rsrsrs Eu corri c/ uma mochila de 10L, que vem com hidratação de 2L de água. Se vc for muito rápida, tipo elite, e estiver planejando fazer a prova em 3h, até pode fazer com uma menor de 5L, mas se não for o caso a de 10 L é boa. Tinha gente correndo com mochila de 15 L e até de 20L.

Indico carregar o mínimo possível. Vc vai ter que levar um fleece (de preferencia o fininho e leve que eles dão no kit), que já ocupa um espaço, mais a bolsa de hidratação cheia de água, q fica dentro da mochila. As comidas vc deixa nos bolos externos da mochila e nos da sua calça.



Considerando tudo isso, acho que vale um check list na hora de escolher a mochila:
  • Conforto - cheque e depois cheque de novo como as alças da mochila ficam nos seus ombros. Não pode ficar raspando, incomodando ou batendo. Pense no atrito, que talvez vc esteja ensopado e no peso com a água, pq qualquer pequeno incômodo vira insuportável em 3 dias de prova.
  • Bolsos laterais externos - não leve uma mochila que não tenha isso. Estou falando daqueles bolsinhos do lado de fora da mochila, com zíper, que ficam logo acima dos seus quadris. É ali que sua comida vai ficar, permitindo que vc pegue os lanchinhos sem precisar mexer na mochila nem parar. São muito muito MUITO úteis.
  • Hidratação - beber água não é preciso, é obrigatório se vc quiser terminar o Cruce. Então escolha um sistema de hidratação que fique bem confortável na mochila. A capacidade fica por conta do freguês, eu fui com uma de 2L mas na verdade poderia ter ido com 1L ou 1,5L na boa. 
  • Barrigueira - se a mochila não tiver aquela faixa de prender na cintura, esqueça. Aliás, a mochila tem que ficar certinha no seu corpo depois de ajustadas e fechadas todas as alças. Nada de ficar batendo ou apertando.
Quanto ao conteúdo, primeiro tem que fazer o check list dos itens obrigatórios da prova, que incluem tanto coisas a serem levadas por dupla quanto coisas que cada pessoa tem que ter. Aí entram coisas como o kit de primeiros socorros (por dupla), fleece (por pessoa) e por aí vai. Só lembra que se é por dupla vcs vão ter que decidir quem leva o que e cada coisa ocupa espaço na mochila. Tipo o bivac. Fora os obrigatórios, considere algumas coisas essenciais:
  • Hipoglós - não vá para a prova sem ele hehehe Pode ser também vaselina, questão de gosto. Mas se vc sentir que o pé molhado está começando a fazer atrito com a meia, para, tira o tênis, enche o pé de hipoglós e troca de meia.
  • Meia extra - é bom levar, no caso da potencial bolha acima ou do frio, como na chegada onde ficamos molhados esperando as vans chegarem.
  • Cobertor térmico de sobrevivência - é aquele troço que parece um papel alumínio gigante, mas que pode salvar sua vida. É minúsculo, não ocupa lugar na mochila e custa baratex, então não tem desculpa p/ não ter.
  • Gorro / luva - aí depende da temperatura da prova e do quão friorento vc for. Nas filas e paradas, onde vc esfria muito, a luva foi uma salvação para mim, que tenho frrrrrrio nas mãos. Se vc não tem dessas frescuras, pode pular essa.
  • Protetor solar - também depende de como estiver o tempo durante a prova, se estiver solão e vc for naturalmente morena jambo como eu, com tom de pele mais para o picolé de coco, vale cogitar. Tem uns protetores que vem num potinho micro de plástico, menor que um baton, não pesa nada nem ocupa espaço.
  • Máquina fotográfica - se vc não estiver competindo para ganhar de alguém que não de vc mesmo, fotinho da prova é algo que vc nunca vai se arrepender de ter. Não precisa comentar que o ideal é vc ter uma máquina daquelas bem compactas né?
  • Impermeável - mas olha, tem que ser impermeável MESMO. Não economize neste item. Nada de comprar aquele impermeável la garantia soy jo, de procedência duvidosa, que pode resolver seu problema num trotinho na cidade chuvosa mas não vai servir para nada se chover de verdade no Cruce. Acredite nos tecidos tecnológicos e leve em consideração coisas como peso, tamanho do anorak dobrado, grau de impermeabilidade (é bom que tenha Goretex ou equivalente), se tem respiros (para vc não cozinhar dentro dele), se tem costuras seladas e se o capuz protege mesmo. Ah sim, e lembre-se de que corta vento e impermeável são coisas diferentes. Como diz meu ditado predileto, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Agora, sobre o container. Ou seja, a caixona onde irão tooooodas as coisas da sua dupla. Não está lá dentro, não existe. Ponto. Olhando as fotos, vc deve estar pensando que o container é grande. E é, mas até a página 3. Porque pense o seguinte, vai toda a vida da sua dupla nessa prova nessa caixa. Vai somando:
  • Barraca
  • 2 sacos de dormir
  • roupas da dupla para o pós-prova (ou seja, os casacos mais grossões, meias etc)
  • comidinhas (que vc vai levar nas provas e eventuais outras coisas que queira comer, incluindo elementos utilíssimos como garrafa de vinho e chocolates).
  • os pratos, talheres, canecas e copos da dupla
  • as roupas de prova, contando com o 2º tênis de cada um mais sapato confortável p/ o acampamento (eu fui de crock)
  • objetos de higiene pessoal como os essenciais lenços umedecidos
  • sacos e sacos extras, porque tudo, mas tudo mesmo que vai dentro da caixa tem que estar em sacos plásticos ou corre sérios riscos de molhar, além das coisas molhadas e canguentas do dia anterior que vc vai ter que jogar lá também
  • kit primeiros e segundos socorros, o que depende de cada um, vi gente que era uma verdadeira farmácia ambulante
  • lacres, que são legais de ter a mão para fechar as caixas
Já não parece tão grande a caixa né? Não é a toa que vc vê gente pulando e se jogando em cima dela para conseguir fechá-la na 1ª vez (depois ela normalmente vai esvaziando).

Na prática, nada disso é tão complicado e, se vc adora uma planilha e acha fazer listas algo divertido como eu, vai curtir as preparações. Mesmo se vc não gostar, não se esqueça que numa prova de 3 dias no meio da montanha, a logística faz parte da prova e descuidar dela pode levar vc de volta para o hotel mais cedo e com uma frustração enorme.

Então planeje, teste tudo o que puder --tipo veja se as coisas necessárias cabem na sua mochila, se vc tem todos os itens, que comidas dão certo com seu estômago numa prova longa etc - e seja feliz, que o Cruce de los Andes vale muuuuito a pena.
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Green Race - com poeira até agora


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 13/09/10 às 18:29 na(s) categoria(s) provas
Pessoas corredoras queridas, quem aqui correu a Green Race? Porque eu corri, sofri um bocado mas a-do-rei. Não tem jeito, para correr tem que ter um lado meio masoquista. Onde já se viu gostar de subir piramba num calor estilo Zâmbia, com a umidade do ar tão baixa que a respiração raspava dentro do nariz e da garganta?

Acreditem, até hoje tenho a sensação de que ficou poeira e terra dentro de mim e se eu tossir vai sair uma nuvenzinha terracota. E olha que eu corri só 10K, o que deveria ser um treininho básico e tranquilo. Mas aqueles 4K do começo foram pra separar os homens dos meninos e as mulheres das meninas - subida, subida, subida, descidinha e depois... mais subida. Isso 3 vezes.

Tinha hora que, como bem observou minha amiga Déa, as pessoas andando te ultrapassavam quando vc estava correndo, então o jeito era apelar para o trekkão. Eu quase achei que ia ter que parar no km3, pq revirou tudo e achei que ia terminar a prova conferenciando com o hugo. Mas aí bateu aquela indignação: PARAR?? COMO ASSIM POR EXEMPLO PARAR?? NUMA PROVA DE 10K?? Nem pensar. Aí eu me levantei, bati a poeira do shorts (o que só fez subir uma nuvem de terra ainda maior) e sai correndo. Ou melhor correndinho, e só depois correndo mesmo.

E foi ótimo! Só pena que no percurso de 10K não teve trilha, só estradão de terra - mas mesmo assim o entorno da serra do Japi era bonito. E os participantes eram pessoas bem humoradas e não pentelhas, o que é um super plus. Ao invés daquele povo que fica gritando coisas absolutamente sem graça e se achando hilárias, as piadinhas eram realmente engraçadas e ninguém gritava. Até porque se vc gritasse perigava sua boca encher de poeira terracota.



Com todo esse astral, no km 6 fui me animando e a partir do 7K já estava feliz e correndo solta. Terminei alegrete, empoeirada e com SEDE. E olha que a hidratação da prova estava bem boa, água a vontade para todo mundo. só que ficou um gostinho de como assim já acabou? Fora que eu e a Déira ficamos pensando que para quem quer fazer uma ultra (ahá, aguardem próximo post para mais detalhes e cenas dos próximos capítulos), 10K era ridículo e a gente tinha que fazer disso um longão mais longo.

Resultado: voltamos o mesmo trajeto de volta, ignorando o ônibus da organização (que depois ficamos sabendo se perdeu). Essa foi a parte MAIS engraçada da prova. Voltamos sem compromisso com tempo, ritmo tranquilo, batendo papo e tentando achar alguma cahoeira legal no caminho (achamos, mas a água estava mais congelada do que pensávamos).

E aí sempre tinha umas almas boas que estavam indo de carro e nos viam ali e se compadeciam, provavelmente achando que as 2 mocinhas, coitadas, não viram que podia voltar de ônibus! Então todo mundo olhava com uma cara de "putz!" e perguntava se queríamos carona e olhava meio estranho quando agradecíamos e dizíamos que não, que tínhamos decidido voltar assim mesmo, a pé. Obrigada pessoas simpáticas! Foi ótimo saber que vocês nos dariam carona se algo desse errado. Mesmo.

Chegamos bem a tempo de sentar no boteco com uma coca gelada e assistir a chegada dos primeiros colocados e torcer pelas amigas que correram de equipe e levaram o 1º lugar no revezamento - maior orgulho de vcs meninas!

Enfim, um dia aprazível em Jundiaí - para quem como eu chama correr, suar, fazer força e mais força de aprazível.
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Diversão e muita força


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 28/06/10 às 13:22 na(s) categoria(s) provas
O título desse post resume como foi a prova de Bertioga-Maresias desse ano. Eu sei, eu sei, já faz tanto tempo que já já abrem as inscrições para o próximo. Essa minha enrolação para postar foi consequência das Quinzenas from Hell que andam pontuando minha vida. Sabe essa transição Itaú-Unibanco? Definitivamente from hell. Tira uma pessoa do sério essa coisa de atendentes educados (o que é bom, claro) mas que não podem fazer nada sobre nada e no final te perguntam se podem te ajudar em mais alguma coisa. Oi? Como assim por exemplo?

Isso sem falar nas correrias múltiplas e deadlines bafejando no cangote aqui na agência. Já se sentiram numa gincana, daquelas onde vc tem que correr atrás de itens bizarros tipo traga uma peruca rosa e um martelo em uma bolsa de plástico quadriculada. Isso, agora um autógrafo do Pelé. Atual, não vale se tiver mais de 5 anos.

Ok, respira, respiiiiira, pronto, já desabafei. Agora vamos para temas mais divertidos, como foi o revezamento Bertioga-Maresias. Primeiro, momento futilidade: adorei a camiseta - um vermelho mais fechado, manga longa, bacana mesmo. Mas em equipe feminina tem que ver que o visual tem um certo peso, mesmo que a gente tenha acordado tão cedo que não deu tempo dos neurônios registrarem detalhes como outfits alheios.

Eu disse cedo? Eu queria dizer ainda de noite. Porque dessa vez a maior parte da nossa equipe resolveu fazer um bate e volta, ou seja, pegar estrada as 5h20 da matina e voltar depois da prova. E dá certo fazer isso? super dá, desde que vc tenha nervos de aço para os inevitáveis atrasos e espera só um minutinho e não se deixe abalar pelo medo de não conseguir chegar a tempo de largar. Porque no fim dá. Especialmente porque nosso carro de apoio oficial era a Esmeralda, uma LandRover sem medo da lama que foi muy gentilmente cedida por uma dupla de mãe e filha que já emocionou a equipe em anos anteriores ao fazer uma dobradinha só para passar o bastão de uma geração para a outra na prova.

Mas assim começou nossa prova, vivendo perigosamente e correndo (de carro) contra o relógio. Não se preocupem, ninguém correu tanto assim, mas que teve momentos de tensão e suspense lá isso teve. E era só a ida pra prova. Chegando lá, antes da largada, qual a coisa mais natural numa equipe feminina que não bobeia com a hidratação? Todo mundo precisa ir ao banheiro, lógico. Como era de se esperar, o único local que tinha banheiro e estava aberto àquela hora tinha uma fiiiiila enooorme no lado feminino. Entre ficar na fila mulherzinha e entrar com a maior naturalidade no banheiro masculino (vazio, fique bem entendido), o que vcs fariam? Nós ficamos com a 2ª opção, porque cara de pau e praticidade são essenciais numa prova.

Primeira constatação ao correr numa equipe de 6 (nos anos anteriores estávamos em 9): a logística é diferente e a prova fica mais ágil e dinâmica, gostei. O lado ruim é que acaba não dando tempo de fazer aquele super apoio-torcida coletiva que eu adoro, porque como 3 pessoas correm 2 trechos, tem que dividir todo mundo e se certificar de que ninguém vai se atrasar - o que QUASE aconteceu comigo, quaaaaase que eu não largo no meu 1º trecho - que foi o 3º trecho, de 6,8K.

Pessoas, ADOREI esse trecho, apesar de curto tem areia, trilha, asfalto e água. Visual bonito, gostoso de correr mesmo. Mas o que não tem preço MESMO é correr com as amigas. são tantas situações comédias que não dá nem para listar todas. Tem as as Pessoas Que Não Ligam de Usar o Matinho e as Pessoas que Só Usam Banheiros de Preferência de Shopping. Tem os momentos Respira no saquinho com medo de não dar tempo de chegar para o seu próximo trecho, agoniadas enquanto a Esmeralda enchia o tanque leeeentaaamennnnnte. Tem o surto de Preciso Trocar o Tênis Molhado Para o Próximo Trecho (tá, essa vou confessar que era eu e o pior, na hora H não troquei de tênis coisa nenhuma, claaaro), nossa motorista oficial de Esmeraldo proecupadíssima em não atropelar os cãezinhos praianos, o momento tenso em que a mesma Esmeralda quase que não sobe a serra, a parada para comprar água e picolé, as risadas, o frio na barriga da sua largada.



Dessa vez também pelo menos eu peguei água nos 2 trechos que fiz, ponto para a organização. E qual o resultado de tudo isso? Um lugar ao pódio no 4º lugar, por minuuutoooos. Antes que vcs falem ahn? 4º lugar tem pódio? Tem sim senhor. Tem até troféu. E nada de piadinhas, que depois de tudo vc pula grita e comemora como se tivesse sido o 1º, mesmo que o lado competitivo diga "ah, na próxima vez vcs vão ver só", especialmente pq não fiquei lá muito satisfeita com a minha performance - mas nem por isso deixei de amar a prova e ficar orgulhosa da performance excelente das minhas companheiras de equipe.

Um detalhe bacana dessa edição: aumentou MUITO o nº de Solo na prova (aquele povo corajoso que corre os 75K sozinho). Tinha bastante gente mesmo e era sempre emocionante ver Solo chegando ao final - ou percorrendo com garra qualquer parte do trecho. Teve uma solo que eu infelizmente não sei o nome que completou apoiada por duas pessoas da equipe médica. Dava para ver o nível de cansaço e provavelmente dor,
mas ela não desistiu - e tenho certeza de que vontade de parar não faltou. Terminou os últimos metros andando mas terminou, sob uma salva de palmas respeitosas. Não sei seu nome mas fica aqui minha admiração, querida Solo cheia de raça.Balanço final: dia lindo, final de prova com muito sol, muitas risadas, muita força.

Valeu meninas!
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Bertioga-Maresias na lista


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 12/05/10 às 12:19 na(s) categoria(s) provas
Está chegando aquela época do ano. Aquela qual? A de correr o revezamento Bertioga-Maresias, claro! Não que eu consiga manter essa assiduidade toda anualmente, mas essa é uma prova que eu sempre tento fazer. Ela tem tudo o que eu gosto: super alto astral, visual bacana, trechos com terrenos diferentes (areia, água, asfalto em planos, subidas e descidas) e possibilidade de se divertir com as amigas da sua equipe. Porque o planejamento e apoio já são metade da diversão nessa prova, a não ser que a pessoa seja do time que não entende o conceito de prova em grupo e acha que basta correr seu trecho e boa, de lá pode ir embora tomar banho e fazer churrasco. Não pode!

A graça dessa prova é que, além de fazer força na sua corrida, vc ainda pode torcer, apoiar, incentivar e ajudar sua equipe. Quando todo mundo corre junto e sofre junto, o gostinho de terminar é beeeem maior. Aliás, se vc nunca fez uma prova de revezamento, considere seriamente a possibilidade. É uma experiência bacana e bem diferente de correr sozinho e, se a sua equipe tiver o mesmo pace, senso de humor e objetivos que vc, vai te conquistar.
 

Claro que se vc é uma pessoa estilo Corredor Solitário fica mais difícil montar a equipe mais divertida ever, mas mesmo assim dá. Junta o pessoal do trabalho ou então começa a falar com amigos corredores, postar no forums de corrida e redes sociais da vida dizendo que procura equipe.

Só não despreze o peso das afinidades numa equipe de revezamento. Endorfinas e adrenalinas costumam gerar faíscas. Sabe aqueles dois que claramente o santo não bate mas que nunca chegaram a um confronto escancarado? Pois é bem provável que durante a prova esse confronto aconteça.

Se vc só quer terminar, não vai inventar de correr com quem está querendo fazer tempo ou quer buscar pódio - e vice versa. Também não vale se inscrever e depois não treinar direito, afinal nesse tipo de prova o seu desempenho afeta a equipe toda! Ao mesmo tempo, naquela hora que vc está morrendo e acha que vai quebrar ali mesmo, saber que tem alguém da equipe te esperando ou ver que o carro de apoio está ali do lado,
gritando e te empurrando pra frente e com uma garrafinha de isotônico-reuperador-de-vidas, te dá forças que vc nem sabia que tinha.

Gostou da idéia? Pois ainda dá para juntar um povo e correr Bertioga-Maresias, dá uma olhada AQUI.
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Maratona de SP na TV: ai que tristeza


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 03/05/10 às 11:01 na(s) categoria(s) provas
Domingo fui assistir a maratona de Sao Paulo na TV. Normalmente, eu adoro assistir as corridas - quando vc também corre, obviamente fica tudo muito mais emocionante. Vc sabe o quanto aquela subidinha ali é sofrida, se admira com o ritmo que o povo consegue impor, fica com o coração na mão quando vê que o gás de alguém está acabando perto do final e torce nas disputas de posições nos pelotões de elite.

O problema, como todos os fãs de corrida sabem, é a cobertura. Desta vez, por exemplo, nem sei que opções de emissoras eu teria, pq só ia conseguir assistir na Globo - coisa que eu evito sempre que posso, porque sempre pisam na bola, a começar com essa coisa prepotente de forçar os horários das provas para a grade de horários da emissora. Quem corre a meia do RJ, por exemplo, sente essa questão literalmente na pele, que esquenta horrores pelo horário tardio da largada.

Dessa vez não foi diferente. A cobertura começou com um tom displiscente, comentando que ah, a largada feminina já conteceu "há algum tempo" (vulgo elas já estavam depois do KM 10) e, para provar, mostraram a elite feminina numa micro janelinha enquanto a imagem principal mostrava o que realmente a Globo achava relevante: a prova paralela de revezamento entre jogadores de futebol, criada pela própria emissora, claro. Gente, que mico era aquele? Ou o jogador era completamente fora de forma, com barrigão de chopp e tudo (e que conseguia correr QUASE 1K, olha só que feito), ou então o cara se matava para fazer uns 5K ou 6K em ritmo meio trotinho. Nem o comentarista oficial conseguiu levar o revezamento bola murcha a sério, e olha que ele claramente nao entende lhufas de corrida e fica na dependencia do comentarista "consultor especialista" explicar as coisas.

Na boa, para que expor os jogadores a este mico leao dourado? Nao adianta nem me perguntar quem eram, pq futebol não é meu esporte e eu não sei lhufas a respeito (não, nem torço para nenhum time. Nenhum mesmo). Os caras talvez sejam ótimos com uma bola no pé, mas correndo... Pega até mal mostrar. Será que eles perderam alguma aposta?

Mas voltando a maratona. Só foram mostrar a disputa dura entre a brasileira Marily dos Santos e as quenianas no KM 15. Com os comentaristas tentando contar o que tinha acontecido da largada até ali. Já a largada da elite masculina foi mostrada - e dominou completamente a cobertura até o quase fim, quando a situação se inverteu. Uma frustração para mim, já que eu acho que muitas vezes rolam mais surpresas na elite feminina do que na masculina. E eu esperava acompanhar ambos né?

No lado bom, pelo menos dessa vez explicaram ao público o que são os coelhos da prova e que eles são contratados para dar o ritmo - na última São Silvestre o comentarista ficava se entusiasmando com a performance de um coelho, como se fosse uma revelação da prova. Claro que sabemos que as vezes coisas incríveis acontecem, se não me engano nossos queridos Vanderlei Cordeiro de Lima e Frank Caldeira já foram coelhos que de repente se entusiasmaram e ganharam a prova.

Dessa vez tambem mostraram um pouco mais de flashes do povo não-elite correndo, o que eu acho bacana, afinal as maratonas não são feitas só de pelotões de elite e tbm de gente como eu e vc, que só quer curtir a prova e melhorar marcas pessoais. E tbm eu tenho que confessar que adoro aquelas fantasias esdrúxulas que o povo inventa. Admiro sinceramente quem consegue correr 42K (ou até 10K) com máscaras tipo a do Homem-Aranha.

Na parte que pega a Berrini / Brooklin / Marginal, tem resistência do vento - o que levou a momentos que acho que foram emocionantes no peltão feminino, com direito a pití da Marily dos Santos com a Dibele Nega. Eu disse acho porque eu não vi, já que a TV estava mostrando o que essa hora? Os jogadores correndinho no revezamento picareta. ÓTEMO.

A hora que realmente decidiram mostrar a mulherada (ou seja, mostrar em janela principal por mais de 1min), era perto do KM 30, quando a Marily já estava correndo sozinha. Como isso aconteceu, não sabemos, pq ninguém que assistia via Globo viu. Quem eram as outras colocadas do pelotão? Nao faço idéia, não mostraram.

Agora a final feminina foi cheia de emoções. Nao falei que elite feminina costuma ser cheia de surpresas? Eu sofri com a Marily dos Santos quando o corpo dela obviamente parou de responder. Quem já não sentiu o gás acabando bem no finalzinho? Dor, cansaço extremo, o corpo vai dando shut down e bate um desespero porque falta menos de 3K - imagina se vc era a campeã e vê seu pódio indo pro espaço? Eu tbm vibrei com a Marizete Moreira. Que máximo vc sair lá de longe, virar a 2ª colocada e nos 2K finais dar um sprintada e ganhar a prova!

Já no masculino, apesar de ser o foco principal da cobertura, ficamos sabendo mais sobre os 2 coelhos quenianos do que sobre os corredores do pelotão de elite. Conseguimos perder os momentos mais cruciais também - que é quando o pelotão de elite se divide ou muda posições. Preciso falar o que estavam mostrando nesses momentos? Pois é, acertou, os gorditos - que estavam aguentando tiração de sarro até dos motoqueiros que os escoltavam. Coitados desses moços, espero que ao menos tenha rolado um cachê.

Foi bonito ver o jovem queniano Stanley Biwott - 23 aninhos - ganhar. Mesmo com o comentarista falando, em tom de desprezo, que "é, agora essa coisa de que maratonista de mais de 30 ganha já era". É impressionante como os quenianos corredores não aparentam a idade que têm. Vc acha que o cara tem uns 35, 37 e quando vai ver.. tem 22. A 1ª vez que vi a foto do Usain Bolt quase não acreditei que ele era taão novinho (na época da foto acho que tinha uns 21). Agora, provavelmente quando eles tiverem uns 50 vao continuar com essa mesma cara atemporal. E correndo muito, claro.

Mas se a cobertura foi assim, então por que é que este ser masoquista que vos escreve continuou assistindo? Porque eu queria ver a maratona, oras! Não me entendam mal, eu acho importante e muito bom para a corrida e seus fãs que pelo menos algumas provas estejam ganhando cobertura nacional. Eu gostaria que fossem mais, imagina que bacana ter cobertura de provas como a Volta a Ilha, o Cruce, da maratona de Foz de Iguaçu ou até de algumas provas mais rápidas tipo meias.

Eu também sei que a Globo tem todas as condições de fazer uma cobertura muito muito melhor. Tem profissionais, nível técnico e dinheiro de marketing. Se quisessem, poderiam ter uma cobertura profissa de dar inveja, com comentaristas que realmente entendessem e gostassem de corrida, informações que interessam a quem corre e nao só essas curiosidades estilo trivia que rolam.

Então minha briga nao é contra nenhuma emissora - é para melhorar o nível da cobertura existente. Como já acontece com esportes como automobilismo e futebol por exemplo. Se a gente que assiste não reclama, como é que vai mudar?

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Trilha, lama, água, terra e piramba: oba!


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 31/03/10 às 16:51 na(s) categoria(s) provas
Sim pessoas, rolou este sábado a prova de Paranapiacaba. Para começar, o lugar é fofo (se vc for homem pode dizer que é pitoresco, antigo ou quiçá interessante que não vai te comprometer). Não é a coisa mais óbvia do mundo de achar, mas é bacana. Minha sorte que a Ari sabe-tudo-de-caminhos-por-dentro estava no mesmo carro e na navegação.

Na estrada, maior fog - vulgo neblina, mas vamos combinar que neblina tem zero glamour. Chegando lá, aquele nubladinho-com-microchuva-mas-calor-abafado que é super OK para correr na trilha. Eu adorei a cara estação-velha-de-trem do centrinho, deu um clima legal à prova, mesmo com as pessoas rindo e falando sem parar (eu incluída, lógico). A nossa trupe estava animada e contava com umas, sei lá, 15 ou 16 pessoas.

Na largada aquela microchuvinha que logo passou, mas deixou o povo com temor e receio de escorregar nas ruas de paralelepípedos (que vcs sabem que homens não têm medo, apenas temor e receio). Aí rapidinho caímos para a trilha. Single track, ou seja, uma trilha estreitinha e única, onde dava para correr bem apesar de estar bem escorregadia.

Alguns metros depois começou a sequência de lamão-rio-lamão-rio, que era tipo um trailer curtíssimo do Cruce sem as pirambas montanhosas e sem o frio. Porque gente, depois daquele frio patagônico com altimetrias com subidas de quase 1000 metros, Paranapiacaba é local aprazível e quase plano. 

Isso não quer dizer que a prova seja fácil! Ao contrário, foi BEM técnica e tinha o que é o meu atual calcanhar de Aquiles das provas de aventura: atravessar rios. Porque o meu caso é simplesmente o de um relacionamento vitoriano em fase inicial, ou seja, a gente se olha e parou por aí. Eu adoro os riozinhos, mas a triste verdade é que eu simplesmente não sei como faz para correr neles. Na prática fica um Pata Choca Style. Talvez porque eu seja uma mocinha da cidade grande que não passou a infância na fazenda? Ou será porque minha avó não gostava de cozinhar nem tinha um sítio? Ou ainda porque essa é a 2ª vez na vida que eu tenho que fazer isso? (o Cruce foi a 1ª até então corrida só no asfalto).

Seja como for, essa incapacidade crônica me fez subir o rio lennn-ta-mennnn-te. Tipo devagar. Bem sem pressa, sabe como é? Eu estava tão concentranda subindo e olhando para o chão, tentando pisar onde os moços da frente pisavam, que quase que fui seguindo o riozinho para sempre. Seguindo, seguiiiindo, seguiiiindo e ele continuava e ia cada vez mais para a direita. Só que gente, a trilha continuava lá em cima, a esquerda. Ou seja, tinha que sair do bendito rio e subir a ribanceira de volta. Ainda bem que a super Naomi gritou de algum lugar Naaaatiiii, sooobeeeeee, senão eu estava seguindo esse rio até agora, provavelmente já em algum outro país.

Para compensar, o jeito era socar a bota quando acabou o rio. Não chega a recuperar o preju, mas dá uma sensação agradável. Achei o visual excelente e o nivel da trilha ótimo! Agora, tem umas coisas que não dá para não comentar. Uma dela é a quantidade de pessoas sem tênis de trilha correndo. Gente, digitem 100 vezes no bloco de notas: tênis de trilha faz diferença, tênis de trilha faz diferença.

Eu sei, macho que é macho corre de chuteira. Ou descalço. Mas olha, o que tinha de macho perdendo tênis na lama e patinando em lugares que um Salomon da vida nem deslizava... Não é a mesma coisa, pessoas. Porque tem uma coisa mágica chamada grip, que impede que vc saia voando ao pisar na lama ou trilhas molhadas. Tenham fé no grip que ele te salva --de muita queda. Claro que tem também a sua técnica e experiência em correr nas trilhas, pedras e rios, mas desprezar um bom tênis de trilha é economizar no que importa.

Voltando para a prova, depois do perrengue veio o alívio, com a trilha um pouco mais larga e mais plana e na parte final, uma descidona daquelas de acelerar pra morte. Adoro prova que termina em descida! O Montanholi acabava e essa agora também, permitindo que vc se sinta O Máximo ao cruzar a linha de chegada, já que vc chega basicamente voando. Psicologicamente, vc sprintou bonito, mesmo que na verdade tenha sido só o impulso ladeira abaixo. E cabeça, vcs sabem, vale pelo menos uns 60% da sua performance em uma prova, especialmente se for de aventura.

Fazendo um balanço da prova, eu adorei largar as 16h - mas não sei se isso vai funcionar na medida em que esse circuito crescer (e vai) e tiver gente bem mais lenta. Porque nesse caso, esse povo vai chegar a noite mesmo e, na boa, aquela trilhinha sozinha no escuro dá meda (assim mesmo, no feminino).

Também senti falta do posto de água do KM 5, só vi no começo (tipo KM 2,5) e lá pelo KM 8 - e precisa avisar o simpático (mesmo, não é ironia) povo do apoio para oferecer sempre pelo menos 2 copos de água de uma vez, que oferecer de 1 em 1 não rende e atrasa os corredores.

De resto, corrida de aventura / cross country / trilha é assim mesmo. É mais rústica, tem mais perrengue, as vezes alguém se perde e tals. Ouvi falar que deu um xabú no percurso de 6K, parece que a marcação da trilha se soltou em umas partes ou algo assim e muita gente saiu frustrada. Tem que reclamar SIM, mas não vamos também transformar a malhação da organização num esporte nacional, especialmente quando é um circuito de
montanha, que é algo ainda não tão popular por aqui.

Vamos cobrar logística mas vamos curtir a prova e comparecer a outras etapas - até para dar oportunidade da prova ir melhorando. A próxima é em S. Sebastião / SP - quem vai??

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Vamos correr na montanha?


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 19/03/10 às 18:25 na(s) categoria(s) provas

Pessoas queridas, já está escolhida e fechada a minha 1ª prova pós-Cruce. Semana que vem, dia 27/3, estarei na 1ª estapa das Corridas de Montanha, fazendo força nos 12K em Paranapiacaba.

Nunca corri este circuito, então não sei como será - mas prometo que quando eu souber vcs também saberão. Aliás, conseguimos fechar um grupo considerável, umas 18 pessoas felizes e desavisadas que toparam sem olhar as fotos de corredores atravessando rios e se segurando em pedras. Tá tão animada a coisa que perigas rola até um microonibus pra prova, seguindo o estilão excursão da 6ª série que foi uma marca registrada do Cruce. Se virem um ônibus chegando e dando vexame já sabem: somos nós.

Agora vcs me dão licença que eu tenho uma coisa realmente SUPER importante para fazer com relação a esta prova? Uma coisa essencial mesmo: escolher o modelito da camiseta, que esse circuito é quase um desfile de moda de tantas opções. Sintam o drama, especialmente a mulherada: regatas de modelos diferentes, colete, frente única, top, manga longa... Para não dizer que o mundo é perfeito óbvio que não tem tamanho P. Mas vamos acreditar que o M feminino não é tão grande assim. Parabéns pessoas organizadoras da prova, variedade de camisetas de prova é bom e nós aprovamos!

Alguém mais vai correr essa prova?

 

 

 

 

 

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